Arianna Bove: A critical ontology of the present: Foucault and the task of our times

Thesis of Arianna Bove, online.

Read more...

Claude Lévi-Strauss, aos 90 (entrevista com Beatriz Perrone Moisés)

n1a02ft1.gif (32675 bytes)

Foto: Éric Brochu

Esta entrevista foi realizada a 10 de novembro de 1998 (fonte: Scielo). A rapidez e a gentileza com que Lévi-Strauss respondeu à consulta feita pelo Departamento de Antropologia quanto à possibilidade de realizá-la, confirmaram informações de várias pessoas que já o conheciam pessoalmente: de fato, é muito disposto e receptivo. Recebeu-me em seu escritório no Laboratório de Antropologia Social, onde continua indo, religiosamente, duas vezes por semana.

Também vários entrevistadores haviam mencionado a extrema cortesia de seus gestos e palavras, e o bom humor, que às vezes irrompe, inesperado, no riso discreto (como quando eu lhe disse que tínhamos a honra de considerá-lo como um "herói civilizador"...). Também já tinha sido comentada a precisão das palavras, as respostas exatas, claras, bem construídas. No mês em que completaria 90 anos, Claude Lévi-Strauss mantinha intacta a limpidez do raciocínio, sendo inclusive capaz de retomar frases no mesmo ponto em que as deixara, depois de inserir comentários, observações ou precisões. Fala com carinho da juventude, anima-se com a lembrança das expedições, mas reluta em falar do presente. As palavras em itálico, em suas respostas, são as que ele disse em português.

*

*

*

n1a02ft2.gif (78039 bytes)

Beatriz: No início do "Prólogo" a Saudades do Brasil o senhor se refere a uma memória olfativa das expedições pelo interior. De que outros odores o senhor se lembra?

Lévi-Strauss: "Como se sabe, na época em que fui para o Brasil [1935], viajávamos de navio, não havia aviões, e os navios eram também cargueiros, e faziam muitas escalas [o navio em que veio Lévi-Strauss partiu de Marselha e fez escala em Barcelona, Cádiz, Argel, Casablanca e Dakar antes de aportar em Santos]. Nunca me esquecerei que, ao chegar — estávamos em alto mar havia dezenove dias, acho — e a primeira percepção que tivemos do Novo Mundo — ainda não se podia ver a costa — foi um cheiro. Um cheiro difícil de descrever, porque as associações são fáceis demais: cheiro de tabaco, cheiro de pimenta... enfim, tudo isso está ligado ao Novo Mundo, não sei se é exatamente isso. Mas é sem dúvida uma das dimensões da natureza brasileira, que não é apenas visual, ou tátil, é também olfativa".

Beatriz: E quais seriam esses "odores do Brasil"?

Lévis-Strauss: "Há muitos outros odores, que emergem ao acaso. Lembro-me, por exemplo, que depois dos Nambikwara, estávamos indo na direção do Madeira, e ainda não era a floresta amazônica, era mais o campo, uma espécie de floresta seca, e de repente, montado no cavalo, vi no solo um campo de abacaxis selvagens. Bastava inclinar-se bem baixo, sem desmontar, para arrancar os frutos e comê-los. É uma das sensações gustativas e olfativas que ficaram porque não era como o abacaxi que conhecemos, era um abacaxi com um cheiro de framboesa absolutamente extraordinário. Há muitos e muitos outros cheiros, mencionei esse apenas como um exemplo... há ainda o cheiro do fumo, cheiro de fumo de rolo em toda parte. Aliás, era o que eu fumava, em folhas de milho, que davam ao tabaco um sabor e um cheiro muito muito particulares, que também ficou. Há também a pinga..."

Beatriz: O senhor gostava de pinga?

Lévi-Strauss: "Ah, sim, gostava muito! E me lembro também, da fabricação, uma vez por semana, da rapadura, nas fazendas do interior, para o consumo dos peões, de seus filhos e de suas famílias, isso também tinha um cheiro e um gosto muito especiais".

Beatriz: Durante as expedições, o senhor comia como os brasileiros, como a população regional?

Lévi-Strauss: "Na verdade, não havia população regional... enfim, havia, durante algum tempo, e depois, mais ninguém. Tínhamos feito grandes provisões: arroz e feijão, claro, e algo que chamavam de bolachas, que também constituem uma lembrança bem clara... ficavam duras como pedra… E também caçávamos..."

Beatriz: O senhor era bom caçador?

Lévi-Strauss:"Tenho vergonha de dizer, porque atualmente sou um opositor radical da caça, mas não era um mau caçador... e, o que é ainda mais lamentável, eu gostava disso".

Beatriz: No ano anterior a essas expedições, o senhor deu aulas na então recém-criada Universidade de São Paulo, integrando a segunda leva de professores estrangeiros. O que significam hoje para o senhor os laços com a Universidade de São Paulo?

Lévi-Strauss: "Sabe, é difícil dizer, porque sentimentos de tipos diferentes se mesclam. Era o tempo de minha juventude e, naturalmente, as pessoas são muito apegadas a seus anos de juventude. Para mim, o Brasil, São Paulo são completamente indissociáveis de meus anos de juventude, e eu já não saberia separar as coisas.
Mas, enfim, eu diria que para jovens professores, que eram praticamente iniciantes na carreira universitária, era antes de mais nada uma oportunidade extraordinária e uma experiência única, porque além de sermos novos na carreira, tínhamos viajado pouquíssimo, por causa dos exames, concursos e coisas desse tipo. De modo que, através de São Paulo, através do Brasil, era um pouco o mundo inteiro que se revelava, ou pelo menos uma face diferente do mundo. Assim, tudo isso representa um conjunto tão rico, tão farto, que eu não saberia o que destacar..."

Beatriz: A idéia de viajar para tão longe era, em si, atraente?

Lévi-Strauss: "Eu tinha vontade de ver o mundo, de ir para bem longe. Já na infância e na adolescência, eu montava várias pequenas expedições no campo francês... eu queria aventura, onde quer que a encontrasse... naturalmente, quanto mais longe eu fosse, melhor..."

Beatriz: Apesar da famosa declaração de Tristes trópicos ["Odeio as viagens e os exploradores."], o senhor gostava, então, de viajar?

Lévi-Strauss: "Ah, sim! Naquela época eu gostava de viajar. É preciso lembrar que Tristes trópicos foi escrito quinze anos depois de minha volta do Brasil, e eu não pensava nas viagens daquela época, mas nas viagens que poderia fazer no momento em que escrevia".

Beatriz: O fato de o Brasil ser, desde o século XVI, uma destinação, digamos, privilegiada pelos franceses, fazia alguma diferença?

Lévi-Strauss: "De certo modo, senti uma espécie de sensação de segurança, sabendo... É claro que eu não sabia de nada disso muito antes de ir para o Brasil, aprendi tudo isso nos meses que precederam minha partida, já que os nomes de Thevet, Léry, evidentemente, não constavam do programa de licenciatura em Filosofia. Assim, foi depois... Mas, eu dizia, uma sensação de segurança, por saber que meus passos seguiam os passos de grandes ancestrais. E a sensação é duradoura, porque há uns trinta anos, minha mulher e eu compramos uma casa no campo e depois de a comprarmos, descobrimos que se encontra a uns poucos quilômetros da casa onde nasceu Jean de Léry."

Beatriz: Thevet e Léry, o senhor dizia, não constavam do programa. Mas Montaigne sim…

Lévi-Strauss: "Ah, sim! Mas não precisava estar no programa para ser lido [risos]. Ainda hoje é assim… continua no programa."

Beatriz: O Brasil era, então, de certo modo, mais próximo do que outras regiões…

Lévi-Strauss:"Sim, muito mais, certamente… além do mais, com a quantidade de palavras de origem tupi que passaram para o francês…"

Beatriz: Os Tupi, justamente, forneceram à Europa os elementos básicos para a construção do Selvagem. Bom ou mau, é o ameríndio que, desde então, figura como o selvagem: o que explicaria o fato de serem os ameríndios os Outros por excelência do pensamento europeu?

Lévi-Strauss: "Há uma resposta simples, simplista, até, afinal, eles ocupavam metade do mundo, e não algumas ilhotas dispersas. Uma presença maciça. E, além disso, os primeiros autores, não apenas franceses, como os mencionados, mas também ingleses, alemães e outros, que se interessaram pelo exotismo, começaram pela América, porque era a América que acabava de ser descoberta, no final do século XV, e que dominaria todo o pensamento do Renascimento. Trata-se de uma série de acasos objetivos, que fizeram com que os ameríndios fossem, para o Ocidente, o Outro por excelência".

Beatriz: Nenhuma outra razão explicaria sua permanência nesse papel, até hoje?

Lévi-Strauss: "Parece-me que há dois casos no mundo, no século XX, em que modos de vida tradicionais se mantiveram por mais tempo: a América do Sul e Nova Guiné, as montanhas da Nova Guiné, que foram descobertas em 1930-35, ao passo que o contato com a América se manteve constante desde o século XVI. O contato com os ameríndios nunca foi interrompido, de modo que é natural que ocupem, no pensamento do Ocidente, um lugar privilegiado."

Beatriz: Razões históricas, portanto, ou "acasos objetivos", como o senhor disse há pouco… os americanistas não teriam contribuído para a permanência dessa imagem, no modo como apresentam as culturas ameríndias?

Lévi-Strauss: "Bem, em parte, sim, mas apenas se generalizarmos… de fato, não se pode dizer o mesmo dos oceanistas ou dos especialistas em Nova Guiné, portanto, há aí algo de específico…"

Beatriz: O senhor já disse, em várias entrevistas, que optou pela etnologia como reação contra a escola sociológica francesa, contra Durkheim, especificamente. Gostaria de pedir-lhe que falasse, mais uma vez, dessa relação…

Lévi-Strauss: "Quando eu era estudante, no início de minha carreira, insurgi-me contra a escola... enfim, contra Durkheim, porque na mesma época descobria a etnologia anglo-americana e, é claro, eu era especialmente sensível à diferença entre o teórico e pessoas que falavam de coisas que tinham ido ver em campo. Como eu mesmo tinha um grande gosto pela aventura, sentia-me mais próximo deles. Mas creio que, posteriormente, compreendi bem melhor e retornei, em grande parte, à tradição durkheimiana.
Eu nunca fui aluno de Mauss, já que nunca tinha feito etnologia antes de partir para o Brasil, mas de qualquer modo, antes de partir, fui ver Mauss e também fui ver Lévy-Bruhl. Eles me deram conselhos, quando eu retornava à França, ia vê-los. Não houve, portanto, uma ruptura... Foi mais, digamos, uma passagem inconstante e, posteriormente, um retorno muito profundo ao pensamento durkheimiano e ao de Mauss".

Beatriz: Mauss teve uma influência especial?

Lévi-Strauss: "Pessoalmente, conheci pouco Mauss. Devo lhe ter feito umas... três visitas, e não foram longas. Foi muito antes, pela obra, que eu fui cativado. Porque no pensamento de Durkheim havia algo de fulgurante, era uma bela construção, monumental... Mauss… era uma noite toda atravessada por clarões... E houve um outro que também me influenciou muito, mais tarde: [Marcel] Granet, que considero como da mesma grandeza que Mauss e Durkheim ou talvez até, em certos aspectos, ainda maior".

Beatriz: Os autores anglo-americanos que o senhor mencionou há pouco….

Lévi-Strauss: "Foram Lowie e Firth. O primeiro livro de teoria etnológica que li foi Primitive Society, de Lowie. A primeira monografia foi We, the Tikopia. Por acaso".

Beatriz: E tudo isso o levou à etnologia…

Lévi-Strauss: "Acho que já contei isso algumas vezes. Eu era professor de Filosofia num liceu do interior, e não podia conceber passar a vida toda dando um curso de Filosofia, talvez aperfeiçoado ano após ano, mas que de qualquer modo seria sempre o mesmo. Naquela época, a Etnologia estava se constituindo como disciplina na França — o Instituto de Etnologia foi fundado em 1925, creio, e o Museu do Homem, para a Exposição Universal de... 1937, acho — e o recrutamento era feito em grande parte entre os jovens filósofos. O exemplo mais notável foi o de [Jacques] Soustelle, que era mais novo do que eu e que, desde muito jovem, tinha certeza absoluta de que se tornaria mexicanista e que, logo depois de concluída a licenciatura, voltou-se para o Museu do Homem e para a Etnologia. De modo que era uma via de saída... escolhi-a por isso. E também porque tinha vontade de ver o mundo".

Beatriz: Ver de perto, para ver de longe…O olhar distanciado que, segundo o senhor, caracteriza o antropólogo, é algo que se aprende, que se constrói? É vocação ou treinamento?

Lévi-Strauss:"A expressão é de Hami, que era um grande autor dramático japonês. Ele dizia que, para ser um bom ator, era preciso olhar para si mesmo, o tempo todo, com os olhos afastados do espectador. Acho que o olhar distanciado pode ser aprendido, mas acho também que é algo que se pode possuir desde o nascimento, uma espécie de característica da personalidade de cada um. No meu caso, creio que se trata da segunda hipótese".

Beatriz: Se esse olhar é indispensável para fazer antropologia, é melhor que seja uma vocação?

Lévi-Strauss: "Acho que há muitos modos de ser antropólogo, e de tornar-se antropólogo... e há muitas moradas na casa do Senhor... A vocação é um dos modos, há provavelmente outros".

Beatriz: Falemos então sobre os seus modos de fazer antropologia ou, mais precisamente, análises de mitos. O senhor mencionou algumas vezes que trabalhava com fichas e, ao longo da elaboração das Mitológicas, as espalhava às vezes sobre a mesa, onde elas de certo modo assumiam configurações que lhe revelavam relações. Como são essas "fichas de mitos"? Posso ver algumas?

Lévi-Strauss: "Eu não trabalhava exatamente com fichas de mitos, esse é meu modo de trabalhar em geral. Faço muitas fichas. Meus ficheiros estão em casa, não tenho nenhuma ficha aqui… Mas não há nada de especial em minhas fichas. Algumas contêm referências, outras uma ou várias frases que li num livro e que chamaram minha atenção, ou uma idéia que tive e transcrevi numa ficha. Podem ser acerca de mitos, ou de livros, podem ser acerca de um objeto que vi, ou de uma idéia que me ocorreu. Em relação aos mitos, podem conter versões completas, às vezes há páginas dobradas no formato de uma ficha, colocadas nos ficheiros, às vezes são resumos... Nada de organizado.

Quando me falta inspiração, quando estou sem idéias, pego um monte de fichas — eu deveria colocar isso no imperfeito, porque se refere ao tempo em que eu trabalhava — e, só de espalhá-las, misturá-las, agrupá-las ao acaso, às vezes me vem uma idéia".

Beatriz: Não se pode então falar num método de fazer fichas, ou de utilizá-las…

Lévi-Strauss: "Não, nenhum. Ao contrário, eu diria que as fichas, para mim, são exatamente o oposto de um método, são o meio de ter idéias imprevistas".

Beatriz: Mas a redação das Mitológicas terá exigido muita disciplina, sem dúvida.

Lévi-Strauss: "Durante uns dez anos, não pensei noutra coisa, das seis da manhã às seis da tarde... Sempre tive em mente o exemplo de Saussure, que dedicou parte de sua vida a mitos, os Nibelungen, e que nunca os publicou, nunca conseguiu pô-los em ordem, e dizia a mim mesmo que, se continuasse assim, repetiria essa desventura, e precisava decidir que teria um fim. Na verdade, o quarto volume, O homem nu, contém a matéria de três livros... Mas eu me proibi de escrevê-los. Disse a mim mesmo: é esse, e será o último. Finalmente, não foi o último, já que depois vieram A via das máscaras, A oleira ciumenta e História de Lince... Mas, de qualquer modo, eu queria fazer algo que formasse um todo".

Beatriz: História de Lince, o último, pode ser considerado como uma espécie de balanço de todo o trajeto das Mitológicas?

Lévi-Strauss: "Para mim, pessoalmente, há o que eu chamo de ‘grandes mitológicas’, os quatro volumes, e os três outros, que constituem as ‘pequenas mitológicas’... estas não são, de modo algum, um balanço em relação às outras. São simplesmente questões que me pareceram interessantes e que não tinham lugar... eu tinha feito alusão a elas diversas vezes... mas elas não se encaixavam exatamente no desenrolar da argumentação. Assim, eu dizia a mim mesmo: um dia, talvez, eu retome tudo isso."

Beatriz: Qual é seu ritmo de trabalho, atualmente?

Lévi-Strauss: "Já não trabalho muito... não haverá mais nenhum livro".

Beatriz: Pena!

Lévi-Strauss: "Não, não é nenhuma pena, porque eles já não seriam bons... supondo que algum dia o tenham sido… Não…escrevo coisas pequenas, artigos, prefácios..."

Beatriz: Então o senhor continua escrevendo...

Lévi-Strauss: "Sim, escrevo e leio… muito menos…"

Beatriz: O que o senhor lê?

Lévi-Strauss: "Ah, leio coisas variadas, aquilo que me mandam, principalmente, os livros para os quais devo escrever um prefácio. A Academia Francesa dá prêmios, é preciso ler os livros... de modo que é em parte, digamos, literatura, e em parte profissional".

Beatriz: O senhor contou, certa vez, que lia regularmente revistas científicas, acompanhando o que se faz nas ciências exatas e biológicas — que, aliás, forneceram imagens muito poderosas à sua obra. O senhor continua lendo essas revistas?

Lévi-Strauss: "Bem, nunca li tanto assim… sempre me inteirei dessas questões através de revistas de vulgarização científica, para grande público… Enfim, continuo lendo regularmente a Scientific American, a Recherche... tento ter uma idéia muito vaga e muito ingênua do que está acontecendo".

Beatriz: As pesquisas arqueológicas e paleontológicas têm mostrado uma história do continente americano cada vez mais complexa. Certa vez, comparando seu trabalho ao de Dumézil, o senhor disse que, de certo modo ao contrário dele, que tratava de demonstrar uma história comum que não era dada, o senhor partia de uma unidade da América que lhe era dada pela história…

Lévi-Strauss: "Sabemos que houve várias levas de povoamento na América. A história americana é provavelmente muito mais antiga do que se dizia até recentemente — mais antiga, em todo caso, do que se afirma ainda nos Estados Unidos —, e não se deve imaginar várias levas de povoamento com gente que chegou, instalou-se e permaneceu no mesmo lugar. Creio que as várias levas de povoamento são o início de uma história extremamente complicada, e que ficaríamos totalmente incapacitados de compreender as culturas americanas se não supuséssemos que, durante milênios, as pessoas circularam, deslocaram-se dentro do continente, e lançaram a base de ... bem, uma unidade, seria exagero... enfim, de uma homogeneidade relativa de todas as culturas ameríndias. É claro que elas diferiram e divergiram enormemente, mas todas elas têm algo em comum. E o fato de terem algo em comum seria totalmente incompreensível se não supuséssemos que os povos circularam, não apenas do norte para o sul, mas também do sul para o norte, que houve uma grande quantidade de deslocamentos. Enfim, temos tendência a achatar a história americana, e a não conceber que durante um milênio, para falar de apenas um milênio, houve uma enormidade de acontecimentos dos quais não temos a menor idéia, infelizmente..."

Beatriz: Em seu discurso de recepção à Academia Francesa, em 1974, o senhor declarou que a cultura francesa estava abalada, talvez até condenada. O senhor diria o mesmo hoje?

Lévi-Strauss: "Sim, creio que a cultura francesa está muito ameaçada... continua muito ameaçada…"

Beatriz: A ponto de correr o risco de desaparecer?

Lévi-Strauss: "As culturas não desaparecem nunca, elas se misturam com outras, e dão origem a uma outra cultura. Mas... bem... aquela que me formou e que me foi ensinada, na escola e em casa, é uma cultura à qual sou muito apegado, e não posso deixar de me entristecer ao vê-la se perder e se transformar em outra coisa... o que certamente acontecerá... mas digo a mim mesmo que, felizmente, não estarei mais aqui..."

Beatriz: Seria possível definir os princípios dessa cultura francesa?

Lévi-Strauss: "Não, não creio que se possa aplicar a análise estrutural nessa escala. Há variáveis demais. Por isso pessoas como Foucault nunca foram estruturalistas... eles mesmos o disseram, não é portanto nenhuma crítica..."

Beatriz: E as culturas ameríndias, estão condenadas?

Lévi-Strauss: "Hesito muito em formular uma opinião, porque, afinal, faz... sessenta anos (é isso?) que vi os ameríndios pela última vez. Quando se é etnólogo, é preciso se abster de fazer afirmações acerca de sociedades que não se viu viver, que não se observou... É evidente que elas estão ameaçadas, que se transformam... mas até que ponto conseguirão salvar algo de original e fazer com que isso se torne um elemento importante daquilo que será sua cultura no futuro... para ter uma opinião quanto a isso seria preciso ir a campo. Eduardo Viveiros de Castro, Manuela Carneiro da Cunha …, vocês, podem falar disso".

Beatriz: Já em Raça e História (1961) o senhor alertava para a necessidade de preservar a diversidade das culturas humanas e para a importância do intercâmbio cultural. Posteriormente, demonstrou diversas vezes o temor de que um "excesso de comunicação" pudesse levar a uma homogeneização paralisante. Apesar de tudo, não lhe parece que as culturas humanas têm demonstrado uma grande vitalidade no sentido de criar diferenças?

Lévi-Strauss: "Eu diria que é a única esperança que nos resta, a de que elas saibam refazer diferenças, o que permitirá aos antropólogos existir. Creio que isso acontecerá ou, pelo menos, espero que sim. Este é um período crítico e, sinceramente, espero que não dure. Fissuras haverão de ser reproduzidas... naturalmente não onde estavam antes, e certamente não onde poderíamos supor que surgissem. De qualquer modo, creio que a humanidade permanecerá diversa, essa é sua única chance".

Beatriz: Que mensagem o senhor enviaria aos antropólogos brasileiros?

Lévi-Strauss: "Sei que já não falo com aqueles que foram meus alunos, porque eles também estão aposentados [risos], é com os que foram alunos de meus alunos e, talvez, até alunos dos alunos de meus alunos... são várias gerações, e sinto-me algo como um trisavô... Mas gostaria de dizer que após meus primeiros contatos com jovens que tinham um amor ao saber e um desejo de conhecimento totalmente extraordinários, e que tinham praticamente a mesma idade que meus colegas e eu, não foi apenas uma relação entre professor e alunos, mas quase uma relação de camaradagem. E como eles evidentemente sabiam muito mais acerca do Brasil do que eu, foi também uma espécie de troca. Eles nos ensinavam o Brasil e nós procurávamos ensinar-lhes o que podíamos, mas eu jamais poderia supor, na época, o que aconteceria realmente no Brasil na minha área, isto é, que rapidamente nasceria uma antropologia brasileira. Não digo que não existisse uma antropologia brasileira, mas era muito antiquada, tradicional, ainda muito marcada pelo espírito do século XIX, ao passo que a que estava para nascer mostrou muito rapidamente que estava na ponta da pesquisa antropológica, e situou-se imediatamente no nível dos países que se tornaram famosos nessa área — a Inglaterra, os Estados Unidos, .. .a França. Assim, sinto que tive participação num tipo de evento que certamente não tem termo de comparação — ou poucos — na história universitária mundial.

Aos jovens antropólogos brasileiros, eu diria — mas não preciso dizer-lhes isso, seu exemplo o demonstra — que não esqueçam a etnologia tal como é praticada desde o seu nascimento. Numa época em que, seja na Inglaterra, nos Estados Unidos ou na França, se percebe um certo desânimo entre os jovens, que precisam encontrar novos objetos — ou sujeitos, se preferirem falar nesses termos — porque aqueles que estudavam tradicionalmente não existem mais, ou se transformam rápido demais, felizmente, no Brasil, a grande etnologia ainda existe... e desejo que continue existindo por muito tempo".

*

* *

Depois de encerrada a entrevista, notei ao meu lado algo que me parecia uma árvore em miniatura, cujas folhas eram pedacinhos de papel com anotações, colados em "galhos" revirados e perfeitamente simétricos. Olhei mais de perto, e percebi que o objeto, protegido por uma redoma de vidro (foto), é a estrutura, em três dimensões, de um grupo de mitos, cuja representação gráfica se encontra à página 81 de L’origine des manières de table (Mitológicas III). A própria página, unida à página 80 do livro, constitui um "fundo" para a "árvore" de mitos, dentro da redoma (reproduzidas a seguir a partir da 1ª edição, de L'origine des manières de table, Paris, Plon, 1968). Evidentemente fascinada pelo objeto, perguntei a Lévi-Strauss se costumava construir assim estruturas míticas. Respondeu-me que sim, que as construia conforme as percebia nos mitos, com os pedaços de papel, barbante, tesoura e cola que sempre tinha à mão. Alguns desses objetos, continuou, "eram como móbiles à la Calder", e ficavam pendurados pelo laboratório de antropologia. Mas eram muito frágeis, e logo se destruíram. Finalmente, tinha sobrado apenas aquela. "Mas então o senhor é um bricoleur também no sentido primeiro do termo [que remete, como se sabe, a trabalhos manuais]?" Sorrindo, respondeu-me que sim, gostava de usar as mãos para construir coisas desde a infância…

n1a02ft3.gif (89277 bytes)

n1a02ft4.gif (37796 bytes)

n1a02ft5.gif (77318 bytes)

Fotografia: Éric Brochu
Paris, 1998

Read more...

John Protevi's Web Site

Resources, outlines, texts and Courseworks in several subjects:

Genealogies of Postmodernity; Foucault; Deleuze/Guattari; Derrida; Kant; Women's & Gender Studies; Western Civilization [link]

Read more...

Jacques Lacan: Le Symbolique, l’Imaginaire et le Réel (8 juillet 1953)

http://i315.photobucket.com/albums/ll452/Dhagrow/lacan.gif

Mes bons amis,

Vous pouvez voir que pour cette première communication dite « scientifique » de notre nouvelle Société, j’ai pris un titre qui ne manque pas d’ambition. Aussi bien commencerai-je d’abord par m’en excuser, vous priant de considérer cette communication dite scientifique, plutôt comme, à la fois, un résumé de points de vue que ceux qui sont ici, ses élèves, connaissent bien, avec lesquels ils sont familiarisés depuis déjà deux ans par son enseignement, et aussi comme une sorte de préface ou d’introduction à une certaine orientation d’étude de la psychanalyse.


En effet, je crois que le retour aux textes freudiens qui ont fait l’objet de mon enseignement depuis deux ans, m’a – ou plutôt, nous a, à tous qui avons travaillé ensemble, donné l’idée toujours plus certaine qu’il n’y a pas de prise plus totale de la réalité humaine que celle qui est faite par l’expérience freudienne et qu’on ne peut s’empêcher de retourner aux sources et à appréhender ces textes vraiment en tous les sens du mot. On ne peut pas s’empêcher de penser que la théorie de la psychanalyse (et en même temps la technique qui ne forment qu’une seule et même chose) n’ait subi une sorte de rétrécissement, et à vrai dire de dégradation. C’est qu’en effet, il n’est pas facile de se maintenir au niveau d’une telle plénitude. Par exemple, un texte comme celui de « L’homme aux loups », je pensais le prendre ce soir pour base et pour exemple de ce que j’ai à vous exposer. Mais j’en ai fait toute la journée d’hier une relecture complète ; j’avais fait là-dessus un séminaire l’année dernière. Et j’ai eu tout simplement qu’il était tout à fait impossible ici de vous en donner une idée, même approximative ; et que mon séminaire de l’année dernière, je n’avais qu’une chose à faire : le refaire l’année prochaine.


Car ce qui m’est apparu dans ce texte formidable, après le travail et le progrès que nous avons faits cette année autour du texte de « L’homme aux rats », me laisse à penser que ce que j’avais sorti l’année dernière comme principe, comme exemple, comme type de pensée caractéristique, fournis par ce texte extraordinaire était littéralement une simple « approche », comme on dit en langage anglo-saxon ; autrement dit « un balbutiement ». De sorte qu’en somme, j’y ferai peut-être incidemment une brève allusion, mais j’essaierai surtout, tout simplement, de dire quelques mots sur ce que veut dire la position d’un tel problème ; sur ce que veut dire la confrontation de ces trois registres qui sont bien les registres essentiels de la réalité humaine, registres très distincts et qui s’appellent : le Symbolique, l’Imaginaire et le Réel.

[Complete text here]

Read more...

Michel Foucault, History of Madness - Reviewed by Colin Gordon, Royal Brompton & Harefield NHS Trust

Review of the new anglophone translation, by Colin Gordon


'Work: that which is capable of introducing a significant difference in the field of knowledge, at the cost of certain pains for the author and reader, and with the possible reward of a certain pleasure, namely that of access to another figure of truth'. Michel Foucault's close friend and insightful commentator Paul Veyne recently published, at the age of 75, what may be his magnum opus, L'Empire Greco-Romain. The book is published in a series of which Veyne and Foucault were founding editors, entitled 'Des travaux' (lamely translatable as 'Works'). The motto of the series, cited above, was surely written by Foucault. History of Madness, the book which made Foucault's name and career, written as a doctoral thesis and published in 1961 when he was 34, certainly qualifies as a 'work' in all the designated respects.

That Histoire de la Folie has at last been translated in full, in the year of what would have been Foucault's 80th birthday, is, of course, much to be welcomed. So as to duly celebrate the occasion, we can perhaps leave aside the question of why it has taken so long, how far through the obstruction or negligence of publishers and heirs, how far through the indifference of English-language historians and commentators long content to dismiss or marginalise a work they had never found it necessary to read in full. The English historian Roy Porter, for one, pronounced, towards the end of his own life, that Foucault had been the greatest of historians of psychiatry -- but only, it has to be said, after he had previously indulged at length in cursory caricature of Foucault's work.

There have been four editions of this book in France. The original edition published by Plon in 1961 was titled Folie et Déraison. Histoire de la Folie à l'Age Classique. The second (1963) was heavily abridged for the 10/18 budget paperback series, which in slightly augmented form was translated by Richard Howard in 1965 as Madness and Civilisation. The three unabridged French editions contain identical main texts with differing prefaces and appendices. For the republication by Gallimard in 1972, Foucault shortened the title to Histoire de la Folie à l'Age Classique, suppressed his 1961 preface, and supplied a short new preface explaining the suppression. This edition included two new appendices, a short paper published in 1964 and a response to a critique by Jacques Derrida. The appendices were in turn omitted from the Gallimard Tel edition published in 1976. This English edition contains both prefaces and both appendices, and adds for good documentary measure another reply to Derrida, never included in any French edition, and a facsimile of R.D. Laing's enthusiastic reader's report for the 1965 English translation. There are also some sombre black and white plates of works by Bosch, Dürer, Hogarth, Goya and Fleury, which I think appeared only in the 1961 French edition. Foucault may later have come to view his controversy with Derrida as a storm in a teacup, and Derrida may have come to agree. It is excellent, however, to have the 1961 preface once again available: for its careful balancing of affective engagement and methodological scruple; for the libertarian passion of the closing quotation from René Char's Partage formel: 'A new mystery sings in your bones. Cultivate your legitimate strangeness'; for the proposal of 'a history of limits -- of those obscure gestures . . . through which a culture rejects something which for it will be the Exterior'; and, within the discussion of these 'limit-experiences', for the paragraph which inspired Edward Said: 'In the universality of the Western ratio, there is this division which is the Orient . . . ' [1]. It would be worth investigating whether Foucault's sketch for a comparative historical sociology of social limits and exclusions may have also influenced the current of governmental thinking which a generation later made 'social exclusion' a primary theme of social and urban policy, in France and then in Britain.

Another reason why it is useful to have this Preface once again available is because it shows how crassly Derrida, apart from his challenge to Foucault's reading of Descartes' Meditations and his charges of intellectual terrorism and violence and of an 'act of internment' which 'renders all straightjackets possible', misrepresents the stated project of Foucault's book.[2] Foucault's 1961 preface says that he would have liked to write a history of 'madness itself, in all its vivacity, before it is captured by knowledge', but that this is for more than one reason impossible, and that he therefore proposes to do something else. Derrida states that the 1961 preface proposes to undertake a history of 'madness itself'. Subsequent readers who have not had access to the preface have in some cases credulously accepted this falsehood (at one point even Foucault himself seems to have believed it), despite the evidence of the book, which contains not a word about 'madness itself'. Regrettably, Ian Hacking repeats Derrida's falsehood in his Foreword to this edition.

Complete text here

Read more...

Jean Bodin's - 'Dæmonomania' (1693)


Great reference from BibliOdyssey.

Read more...

Interview with Mark Poster

Post-Poster-the-historian and other Historical Questions
Interview with Mark Poster conducted by Tama Leaver and Kate Riley (pdf file)

In September 2004, Professor Mark Poster of the University of California, Irvine, visited The University of Western Australia as resident Professor-at-Large in the Institute for Advanced Studies. Professor Poster is a member of the History Department, the Film Studies Program and the Critical Theory Emphasis at Irvine and during his time in Western Australia he kindly took time to answer a broad range of questions for Limina.



Read more...

Mark Poster: Foucault, Marxism and History



About the book:

This book is intended as a set of essays examining the value of the recent works of Michel Foucault for social theory and social history. Foucault's works written since 1968 (Discipline and Punish, The History of Sexuality and numerous shorter pieces) contain some important advances in social theory and in the writing of social history. My purpose is to separate out those advances from other features of Foucault's thought which I find less beneficial. I am not attempting to give an assessment of Foucault's work as a whole but to focus on and analyze certain features of it.

To that end I situate Foucault's work in a double problematic: those of critical social theory and a new social formation that I call the mode of information. Although Foucault's politics may be ambiguous, his works are profitably situated in relation to critical theory. He provides, I will argue, models of analysis that contain theoretical elements which, properly interpreted, open up new directions for critical theory, directions that can lead it out of its current impasses. But these new directions only become apparent when certain important changes in the social formation of advanced trial society are recognized. To that end I have coined the somewhat infelicitous phrase 'mode of information' to represent these changes and to contrast the current situation to Marx's concept of the mode of production.

Free and public edition
, here

Read more...

Extinct Monsters (1893)

Moa-Birds
'Extinct Monsters; a Popular Account of Some of the Larger Forms of Ancient Animal Life'
on BibliOdyssey

Read more...

Anytime, anywhere

[livreouvert.jpg]
[Composition autour d'un livre ouvert] : [photographie] / [non identifié],1910-1915

Read more...

Isabelle Koch: Quelle est la singularité du moment néoplatonicien dans L’Herméneutique du sujet?

La question de l’éventuelle singularité d’un « moment néoplatonicien » dans le cours que Michel Foucault a consacré à ce qu’il appelle « L’Herméneutique du sujet », pour qui parcourt le texte publié sous ce titre dans son entier, s’avère être une double question1. Son application première consiste à demander s’il y a une singularité (et si oui laquelle) du néoplatonisme à l’intérieur de l’histoire du sujet que reconstitue, ou plus exactement que constitue, en en déchiffrant certains figures, Foucault dans son cours de 1982. Singularité qui doit être appréciée à la fois par rapport au platonisme ou à Platon (en quoi le moment néoplatonicien n’est-il pas réductible à Platon, notamment à l’Alcibiade ?), et par rapport au mouvement général de L’Herméneutique du sujet (quel rôle particulier joue le moment néoplatonicien dans l’économie générale du cours ?). Mais la question reçoit aussi une seconde acception, qui doit être bien distinguée de la première notamment parce qu’elle n’engage probablement pas le même néoplatonisme. C’est la question de la singularité du néoplatonisme, ou d’un certain néoplatonisme, par rapport au projet que conduit L’Herméneutique du sujet – non plus dans ce projet, mais par confrontation à ce projet, voire à la marge de la forme qu’il a prise dans L’Herméneutique du sujet. Cette double application de la question ici posée dessine le trajet que je voudrais parcourir en lisant L’Herméneutique du sujet – un trajet qui va d’un néoplatonisme singulier par la place qu’il occupe dans L’Herméneutique du sujet à un néoplatonisme singulier par la place qu’il n’y occupe pas.
Isabelle Koch. Université de Provence. (Aix-Marseille I) archive .doc

Read more...

Lorem Ipsum

"All testing, all confirmation and disconfirmation of a hypothesis takes place already within a system. And this system is not a more or less arbitrary and doubtful point of departure for all our arguments; no it belongs to the essence of what we call an argument. The system is not so much the point of departure, as the element in which our arguments have their life."
- Wittgenstein

Lorem Ipsum

"Le poète ne retient pas ce qu’il découvre ; l’ayant transcrit, le perd bientôt. En cela réside sa nouveauté, son infini et son péril"

René Char, La Bibliothèque est en feu (1956)


  © Blogger template Shush by Ourblogtemplates.com 2009

Back to TOP