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De Canguilhem a Foucault, em torno da Psicologia


De Canguilhem a Foucault, em torno da Psicologia - - Cadernos de Ética E Filosofia Política 2 (35):112-142 (2019) DOI: https://doi.org/10.11606/issn.1517-0128.v2i35p112-142

O presente trabalho pretende comparar o debate ocorrido entre Georges Canguilhem e Robert Pagès em Qu’est-ce que la Psychologie?, de 1956, com os escritos de Michel Foucault publicados nos anos 1950. Para isso, após alguns apontamentos históricos, faz-se uma breve análise dos textos de Foucault publicados em 1954, Maladie Mentale et Personnalité e a Introduction à Le Rêve et l’Existence. Os textos de Foucault são então confrontados com o debate entre Canguilhem e Robert Pagès, que por sua vez são analisados e comparados com outros dois textos de Foucault publicados em 1957, La Psychologie de 1850 à 1950 e La Recherche Scientifique et la Psychologie. Tenta-se mostrar que o início da trajetória de Foucault não apenas dialoga com diversos temas sobre a Psicologia e as Ciências Humanas colocados por Canguilhem e Pagès, mas também ensaia respostas cujo teor será mais visível em Folie et Déraison e na Introduction à l’Anthropologie de Kant.

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La psychanalyse et Foucault

Dossier organisé par la revue Genre, Sexualité et Société.

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Wehrle: ‘There is a Crack in Everything’. Fragile Normality: Husserl’s Account of Normality Re-visited

There is paradox that lies at the heart of every investigation of normality, namely, its dependence on its other (e.g., deviation, break, difference). In this paper, I want to show that this paradox is the reason for the dynamism as well as fragility of normality. In this regard, I will not only argue that every normality is fragile, but also that normality can only be established because it is fragile. In the first part of this paper, I will present and re-visit Husserl’s account of normality as concordant and optimal with regard to its dynamic or fragile aspects. In the second part of this paper, I will apply this account to recent findings in phenomenological pathology regarding schizophrenia and depression to show how Husserl’s account could be helpful for differentiating between different aspects (such as concordance and optimality) as well as genetic levels of (disturbances of) normality.

WEHRLE, Maren. ‘There is a Crack in Everything’. Fragile Normality: Husserl’s Account of Normality Re-visited. Phainomenon, [S.l.], n. 28, p. 49-76, feb. 2019. ISSN 2183-0142. Available at: http://phainomenon-journal.pt/index.php/phainomenon/article/view/373

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Michel Foucault: A Pesquisa Científica e a Psicologia (1957)

In: Espaço Michel Foucault (2010)

As múltiplas psicologias que pretendem descrever o homem dão a impressão de ser tentativas desordenadas. Elas pretendem se construir a partir das estruturas biológicas e reduzem seu objeto de estudo ao corpo ou o deduzem das funções orgânicas; a pesquisa psicológica não é mais que um ramo da fisiologia (ou de um domínio dela): a reflexologia. Ou então elas são reflexivas, introspectivas, fenomenológicas e o homem é puro espírito. Elas estudam as diversidades humanas e descrevem a evolução da criança, as degradações do louco, a estranheza dos primitivos. Ora elas descrevem o elemento, ora pretendem compreender o todo. Às vezes se ocupam exclusivamente com a forma objetiva do comportamento, outras vezes vinculam as ações à vida interior para explicar as condutas, ou ainda pretendem apreender a existência vivida. Algumas deduzem, outras são puramente experimentais e utilizam estruturas matemáticas como forma descritiva. As psicologias diurnas querem explicar a razão da vida do espírito pelos clarões decisivos da inteligência, enquanto as outras visam as inquietantes profundezas da obscuridade interior. Naturalistas, elas traçam os contornos definitivos do homem; humanistas, reconhecem nele algo de inexplicável. Esta complexidade é, talvez, justamente a nossa. Pobre alma (as psicologias que hesitam sobre seus conceitos não sabem sequer nomeá-la), cercada de técnicas, remexida de questões, posta em formulários, traduzida em curvas. Auguste Comte acreditava, com algumas reservas, que a psicologia era uma ciência ilusória, impossível e a menosprezou. Não somos tão ousados. Apesar de tudo, há psicólogos, e que pesquisam.

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Transversalité et institution chez Guattari

Larissa Drigo Agostinho. Transversalité et institution chez Guattari. La Deleuziana, 2018

The purpose of this text is to expose the function and the problematic field of the concept of transversality in the Guattari of Psychoanalysis and transversality and the Anti-Oedipus Papers. The concept will be examined in its relation with the question of the institution, because an institution is also named by Guattari as a unit of subjectivity. It is, therefore a question of thinking the forms of organisation within social life, from political groups to the psychiatric hospital, and the subjectivities they produce. For this reason, the problem of the institution will be dealt with in the sociohistoric context that produces it, that is to say the one marked by the events of May ‘68. The relevance of this text lies in its attempt to seize the originality of Guattarian thought, which at the same time thinks new forms of political organisation and allows for the renewal of psychoanalysis by transforming the concept of the unconscious.

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L’hallucination, l’hypnose et l’hystérie. Les débuts d’expérimentateur d’Alfred Binet à la Salpêtrière et à Sainte-Anne

Loig Le Sonn. L’hallucination, l’hypnose et l’hystérie. Les débuts d’expérimentateur d’Alfred Binet à la Salpêtrière et à Sainte-Anne. Recherches et Educations, 2014

Cet article est consacré aux toutes premières expérimentations conduites par Alfred Binet durant la première moitié de la décennie 1880. Il recruta ses sujets d’expérience à la Salpêtrière et, dans une moindre mesure, à l’asile Sainte-Anne. Il se consacra à l’étude des hallucinations visuelles, au carrefour de l’aliénisme et de la neurologie. Il mobilisa l’hypnose et des instruments d’optique (écran, prisme, miroir, lorgnette) pour mener ses expériences.

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Uljana Feest - Gestalt Psychology, Frontloading Phenomenology, and Psychophysics

In his 1935 book Principles of Gestalt Psychology, Kurt Koffka stated that empirical research in perceptual psychology should begin with “a phenomenological analysis,” which in turn would put constraints on the “true theory.” In this paper, I take this statement as a point of departure to investigate in what sense Gestalt psychologists practiced a phenomenological analysis and how they saw it related to theory construction. I will contextualize the perceptual research in Gestalt psychology vis-a-vis Husserlian phenomenology on the one hand and mainstream psychophysics on the other, and I will argue that Gestalt psychologists practiced a form of “frontloading” phenomenology: Instead of requiring experimental subjects to engage in experiential reflections, such reflections were – in a sense – already engrained in the experimental designs used by researchers. This type of phenomenology was decidedly anti-“introspectionist” and as such was compatible with some of Husserl’s basic commitments, while at the same time bearing a surprising resemblance with the methods employed by psychophysicists like E. Boring and S.S. Stevens. This latter point will prompt me to explore what the difference between Gestalt-psychology and psychophysics amounted to. My analysis will reveal some disagreements and misunderstandings, especially with regard to the notions of isomorphism and introspection.
Uljana Feest: Gestalt Psychology, Frontloading Phenomenology, and Psychophysics. Synthese  (in press; Feb. 2019)  

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Kant on Empirical Psychology and Experimentation (Michael Bennett McNulty)

Michael Bennett McNulty (2018). Kant on Empirical Psychology and Experimentation. In Violetta L. Waibel, Margit Ruffing, David Wagner (Eds.), Natur und Freiheit: Akten des XII. Internationalen Kant-Kongresses (pp. 2707–2714). Berlin, Boston: De Gruyter. https://doi.org/10.1515/9783110467888-270

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A Psicologia entre o longo passado e a curta história

This paper intends to insert the History of Psychology in a wider debate along with the History of Philosophy and History of Science. In order to do that, the object of analysis is Hermann Ebbinghaus’s famous phrase, ‘Psychology has an old past, but a short history’, and all the tradition of books and textbooks due to it, very popular on the 20th and 21st centuries. The paper is going to analyse Ebbinghaus’s text and its historical commitments and consequences. Then will perform a critics of this tradition, in 3 fronts of arguments: firstly, bringing up some more recent studies on Gustav Fechner, seen as a central character on the making of Psychology as a science, but nevertheless ignored for its ‘speculative’ commitments. Secondly, the paper will confront such questions with the historical perspectives of 20th century, specially the epistemological history of science. Finally, the paper will open the argument of ‘old past’ to a more wide ‘history’, showing contemporary analysts who started to scan the historical meaning of the word ‘Psychology’

O presente trabalho pretende inserir a História da Psicologia dentro de um debate mais alargado, em torno das Histórias da Filosofia e das Ciências. Para isso, o objeto de análise a célebre frase de Ebbinghaus, ‘A Psicologia tem um longo passado, mas uma curta história’, e toda a tradição de livros e textbooks decorrente dela, muito popular nos séculos XX e XXI. O trabalho analisará o texto de Ebbinghaus e seus compromissos decorrentes. Então realizará uma crítica a essa tradição, em três frentes: primeiramente, trazendo à tona estudos mais recentes sobre Gustav Fechner, encarado como figura central na constituição da Psicologia como ciência, mas não obstante ignorado por seus compromissos 'especulativos’; em segundo lugar, confrontando tais questões com as perspectivas do século XX, especialmente a história epistemológica das ciências; finalmente, abrindo o 'longo passado’ a uma história mais alargada, a partir de analistas mais contemporâneos que começaram a perscrutar o próprio termo 'Psicologia’.
(Source: philpapers.org - Pesquisa de livros sobre Psicologia)

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Bayle: Pesquisas sobre as doenças mentais (Recherche sur les maladies mentales), 1822





Considerações Preliminares

No tocante à descrição dos sintomas, se existe um ramo das doenças humanas que dificilmente poderia ser levado a um grau mais elevado de perfeição, esse é sem dúvida o das doenças mentais. O famoso professor Pinel, no seu Traité de l'aliénation (Tratado da alienação), e, na sua esteira, o doutor Esquirol, nos seus excelentes artigos do Dictionnaire des sciences médicales (Dicionário das Ciências Médicas), elaboraram quadros tão verdadeiros e completos dos numerosos distúrbios da inteligência, que seria vão buscar algum sintoma ou fenômeno essencial que lhes tivesse escapado. Infelizmente, para a espécie humana, os esforços dos maiores médicos, até o presente, apenas permitiram rasgar parte do véu que recobre o assunto aqui abordado. Tanto os sintomas da alienação e de suas numerosas espécies, quanto as causas que a preparam ou excitam foram descritos com a maior exatidão; entretanto, a sua natureza mais íntima, ou, antes, as suas causas imediatas, escaparam, até hoje, às mais laboriosas e científicas pesquisas e, via de regra, deram apenas ensejo a hipóteses mais ou menos duvidosas. Logo, é essa parte da patologia das doenças mentais que deve chamar a atenção dos médicos e exige a observação mais assídua. O conhecimento da natureza das doenças é o alicerce mais inabalável da terapêutica; e, sem dúvida, se a natureza da alienação mental fosse descoberta, o seu tratamento não se limitaria quase inteiramente, como ocorre hoje, aos cuidados mais ou menos infrutíferos da higiene.

As opiniões dos autores em relação à sede e à natureza da alienação são tão variadas que nem cogito passá-las em revista. Vários médicos eminentes, guiados por um juízo rigoroso e pelo medo de incorrerem em disparate, limitaram-se aos resultados de uma observação profunda, sem emitir qualquer opinião ou explicação a respeito da natureza da loucura. O sr. Pinel não dedicou nenhum artigo de sua obra imortal a esse interessante assunto; entretanto, em dado lugar (p. 1411), insinua que a sede primitiva da mania se localiza na região do estômago e dos intestinos, de onde, como que por irradiação, o distúrbio do entendimento se propaga. Vários observadores famosos, como Bonet, Morgagni, Meckel, Greding e Willis propuseram diferentes ideias sobre a alienação; entretanto, fundamentaram-nas em um número de fatos limitado demais para merecerem muita confiança. A maioria dos médicos modernos considera a alienação o resultado de uma irritação do cérebro, não como uma lesão do próprio princípio intelectual. Ora, qual é a natureza dessa alteração física? Este é justamente o ponto obscuro e incerto. As numerosas pesquisas anatômicas feitas em cadáveres de alienados comprovaram de modo incontestável que, por um lado, na maioria dos casos, não há lesões orgânicas perceptíveis pelos sentidos, quer no cérebro quer nas partes adjacentes; e, por outro, em outras circunstâncias, existem alterações mais ou menos notáveis em diferentes órgãos da economia. Esses fatos serviram de fundamento a opiniões opostas quanto à sede da alienação, levando uns a ver a doença como uma afecção idiopática do cérebro e, outros, como uma afecção simpática desse mesmo órgão.

O sr. Georget, autor de um novo tratado sobre a loucura, sustenta que essa doença é sempre uma afecção idiopática, cuja natureza é desconhecida e na qual os sintomas que se manifestam em vários órgãos da economia, mais ou menos afastados do cérebro, são secundários e decorrentes da alteração desse órgão. O sr. Falret, em seu Traité du suicide et de l'hypochondrie (Tratado sobre o suicídio e a hipocondria) compartilha essa opinião. Em compensação, o sr. Prost (Coup d'œil sur la folie [Breve observação sobre a loucura]) considera a alienação uma doença sempre simpática e a define assim: distúrbio dos órgãos cerebrais determinado por um distúrbio dos órgãos mucosos do ventre, sobretudo da bílis e do estômago. Segundo esse autor, a maioria das causas predisponentes e ocasionadoras da loucura age sobre o fígado e os intestinos por intermédio do cérebro. Disto resulta uma secreção de bílis mais abundante, a qual aflui nos intestinos e adquire, diz ele, propriedades que parecem inebriantes para o encéfalo e corrosivas para o aparelho digestivo. Segundo o sr. Prost, a acumulação de bílis torna-se a causa mais ativa da loucura, por comunicar ao sangue fluídos corrompidos, por atuar de maneira imoderada sobre a membrana mucosa intestinal, a qual pode inflamar ou até mesmo escoriar, e finalmente por irritar os vermes que, na opinião desse autor, são comumente encontrados nos alienados. Em consequência desta ideia, considera os vomitórios, purgantes e anti-helmínticos como a base do tratamento da loucura. O sr. Broussais acredita que essa doença se acompanha e é, no mais das vezes, dependente de uma gastrite crônica.

Todas essas opiniões sobre a sede e a natureza da alienação parecem pouco fundamentadas apenas por serem excessivamente exclusivas. Parece-nos que, ao estudar cuidadosamente os fenômenos da alienação mental, todo médico, desde que não esteja dominado por alguma opinião formada ou ideia pré-concebida, apreciará suas causas e comparará os sintomas da doença com as lesões anatômicas encontradas quando se abre o corpo de alienados que morreram. Então, não poderá senão admitir que a loucura, na maioria das vezes, é idiopática e, entretanto, às vezes, sintomática. Esta é a opinião do professor Royer-Collard, que tem tanto peso nesse importante assunto, opinião que abraçamos e tentaremos provar com a ajuda de certo número de fatos, limitando-nos a relatar os que tendem a demonstrar que a alienação mental pode ser simpática, pois os que estabelecem que, na maioria das vezes, ela é idiopática são tão abundantes e concludentes que seria supérfluo querer aumentar mais ainda o seu número.

Nosso trabalho divide-se em três partes. Na primeira, buscamos provar que a alienação mental é, às vezes, o sintoma de uma inflamação crônica do aracnoide. A segunda tenciona demonstrar que essa doença pode ser ocasionada, mantida ou modificada por uma gastrite ou gastrenterite crônica. A terceira inclui duas observações nas quais a loucura parece ter sido determinada por uma gota irregular.

As observações que respaldam esta dissertação foram feitas e recolhidas na Maison royale de Charenton, sob os olhos do professor Royer-Collard, médicochefe desse estabelecimento, ao qual renovo, aqui, a homenagem do meu reconhecimento pelas bondades que me dispensou no decorrer dos meus estudos médicos.

Pratiquei a maioria das autópsias cadavéricas junto com o meu amigo, o doutor Roberts-Roche, inspetor do serviço médico da Maison royale de Charenton.

Texto completo com a parte I - Apresentação com informações importantes da obra - Edição original

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Gandolfo: A classificação das afasias em questão: lugares de institucionalização e de questionamento

O objetivo deste trabalho é problematizar as classificações das afasias
de duas maneiras: 1) analisando a vigência da semiologia neurolingüística e
suas implicações práticas; 2) avaliando lugares institucionais de preservação e 
questionamento da classificação das afasias sendo eles: a academia e clínica.
O objetivo é entender sua vigência, a despeito das refutações de várias ordens
e de várias evidências empíricas que a questionam. Faz parte deste trabalho
colocar em foco os limites e alcances do método clínico, em relação ao
entendimento teórico e à conduta terapêutica no campo da afasiologia.
Assim, tendo em vista o discurso destes dois ambientes, o da academia
e o da prática clínica (o metadiscurso científico clínico sobre a classificação),
verificamos como é que uma lingüística não estruturalista, ou pós-
estruturalista, tem se comportado em relação a semiologia das afasias.
Admitindo que a teoria sócio-cognitiva é a que vai de acordo com a concepção
de linguagem que considera a relação da língua e sua exterioridade como um
fenômeno em construção, as bases explicativas dos fenômenos lingüísticos
mudam e, consequentemente, muda a maneira de fazer ciência, o movimento
das teorias das idéias, como, também, o método científico utilizado para se
chegar a uma classificação das afasias de modo que, fazer ciência passa a se
fundamentar em outras bases. 

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Brincando com a linguagem e criando sentidos ou cognição distribuída e emergência da linguagem

source: http://www.multiciencia.unicamp.br/art06_3.htm 

Edson Françozo - Instituto de Estudos da Linguagem (UNICAMP).
Maria Luiza Cunha Lima - Universidade do Vale do Rio Verde de Três Corações (UNINCOR)
Orlando Bisacchi Coelho
- Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), com apoio da FAEP.


Resumo
Nosso interesse, neste texto, é mostrar alternativas teóricas e metodológicas às concepções tradicionais do sentido das palavras. Habitualmente, o sentido das palavras é obtido a partir de um conjunto básico de informações depositado na memória individual de cada falante e é por ele internamente manipulado de maneira autônoma. Experimentos recentes em robótica, vida artificial e etnografia de sistemas cognitivos mostram como se pode estudar o sentido das palavras como resultado de uma construção entre agentes que cooperam e interagem. O sentido, portanto, passa a ser visto como um fenômeno situado, distribuído e emergente.


Desde o final da década de 1990, Luc Steels (um pesquisador belga) e seus colaboradores vêm desenvolvendo interessantes experimentos com robôs. O objetivo é o de fazer com que um conjunto de robôs, cada um deles dotado de um sistema perceptual simples e igual para todos, fosse capaz de desenvolver, de maneira coordenada, um conjunto de representações comuns sobre o meio onde “vivem”, de tal forma que pudessem estabelecer comunicação e realizar tarefas conjuntamente. A expectativa é a de que essas populações de robôs pudessem desenvolver, adquirir, um sistema de representações comparável à linguagem humana.
Um dos experimentos mais interessantes foi o chamado de “ Talking Heads ” (ver Steels 2000). Nele, cada robô consistia em uma câmera (de vídeo) móvel e um programa de computador capaz de gerar uma seqüência sonora (uma “palavra”) de forma aleatória a partir de um repertório de sílabas pré-gravadas; além disso, cada robô era capaz de “perceber” emissões sonoras. Um par desses robôs era colocado frente a um quadro, onde estavam dispostas figuras geométricas de cores e tamanhos variados (ver Figura 1). A cada turno interacional, um robô assumia o papel de “falante” e o outro o papel de “ouvinte”. O robô falante escolhia, aleatoriamente, uma das figuras do quadro e, nos primeiros turnos, emitia um som – um “nome” – também aleatoriamente gerado. O robô ouvinte movia sua câmera (sua “cabeça”, ver Figura 2) de forma a focalizar uma das figuras no quadro. Isso equivalia a apontar para ela, estabelecendo um referente para a “palavra” ouvida, e assim mostrando sua compreensão. O robô falante confirmava, também verbalmente, se o ouvinte havia feito uma escolha correta ou não. O sucesso ou fracasso, em cada turno interacional, era armazenado na memória de ambos os robôs.
Inicialmente, o grau de acerto entre os pares de robôs era muito baixo, correspondendo a um nível estatisticamente aleatório. Com a realização de numerosos turnos interacionais, porém, o grau de concordância entre eles aumentava muito; isto é, eles tendiam a usar os mesmos sons – “as mesmas palavras” – para designar os mesmos objetos no quadro. Mas, mais importante do que o fato de os robôs concordarem sobre as palavras, uma categorização dos objetos no quadro também era criada. Vejamos um exemplo (hipotético). Imaginemos que os robôs haviam concordado em chamar um objeto quadrado vermelho pequeno de wabaku . A quê a palavra wabaku refere-se? A objetos quadrados? Vermelhos? Pequenos? Isto é, não havia concordância prévia sobre as categorias que poderiam ser postuladas como organizadoras do mundo percebido pelos robôs; elas não estavam, portanto, predefinidas, não eram dadas de antemão. Imaginemos que o experimento continua e, em seguida, um círculo vermelho grande também é chamado de wabaku . Aos poucos, a referência de wabaku pode ir modificando-se, estreitando-se até tornar-se a cor vermelha. Em resumo, os itens lexicais, a referência e a categorização do mundo desenvolvem-se simultaneamente ao longo do experimento.
Muitos robôs foram construídos e colocados a interagir, em pares, frente a quadros distintos. Depois de um determinando tempo interagindo em díades, os pares eram desfeitos, e novos pares eram criados, pela recombinação de robôs (que mantinham a memória de suas experiências interacionais anteriores). Pares assim constituídos interagiam em diversos locais do mundo (Paris, Bruxelas, Hong Kong, Nova Iorque, Tóquio, por exemplo) e, às vezes, quando recombinados, eram transferidos de local.
Com o passar do tempo, alguns robôs eram desativados (isto é, “morriam”), enquanto novos robôs eram gerados e introduzidos em comunidades que já exibiam um léxico desenvolvido. Uma parte dessa tarefa era realizada pelo público que participava voluntariamente do experimento através da Internet. Ao final de quatro meses, uma população estável de cerca de 2.000 robôs havia criado um léxico de 8.000 palavras, correspondendo a 500 conceitos. O fato de haver essa diferença entre número de palavras e conceitos nos permite caracterizar esse léxico como exibindo sinonímia e polissemia, tal qual a linguagem humana.
Segundo Steels (Steels et al. 2002), o sucesso do experimento “Talking Heads” decorre de uma dinâmica que permite a auto-organização de um léxico. Essa dinâmica se baseia no estabelecimento de um processo de realimentação positiva entre o uso de uma determinada forma lexical e o sucesso comunicativo encontrado ao usá-la, já que o sentido das palavras é estabelecido através da negociação, na linguagem, entre os agentes. Steels aponta um conjunto de fatores que se mostraram cruciais para o sucesso do experimento, e especula que esses mesmos fatores podem ter desempenhado um papel crucial no surgimento do léxico humano. Alguns desses fatores de sucesso são internos à arquitetura dos agentes, outros se referem à dinâmica grupal e ao meio ambiente em que os agentes operam. Entre os fatores que se mostraram essenciais para o sucesso do experimento temos:
•  Os agentes devem ter a possibilidade e o desejo de participarem de atividades cooperativas.

•  Além de poderem se comunicar verbalmente, os agentes devem ter, em paralelo, uma outra forma de se comunicarem (via visão, como no experimento ou, por exemplo, via ostensão) que seja confiável.
•  Como o estabelecimento de conceitos precede a verbalização, os agentes devem ter uma forma de adquirir conceitos a partir do contexto partilhado. O processo de formação de conceitos deve se basear em aparatos sensoriais e formas de representar conceitos similares em toda a população de agentes. O número de conceitos que podem surgir a partir de uma dada situação deve ser suficientemente restrito de modo a permitir que as conceituações desenvolvidas por cada agente, na situação, sejam similares.
•  Os agentes devem ter como reconhecer as formas lexicais e reproduzi-las.

•  Os agentes devem ter como descobrir e usar as associações mais fortes que se estabelecem (em ambas as direções) entre palavras e sentidos.
•  De modo a garantir um número satisfatório de interações entre os agentes, a população deve ser suficientemente estável e seu tamanho inicial não deve ser grande demais.
•  O ambiente, tal como percebido através do aparato perceptual dos agentes, deve ser estável o bastante e deve oferecer uma parcela de situações perceptualmente simples.
Ele também assinala alguns fatores que não se mostraram necessários – na verdade, não foram incorporados no experimento, por decisão de projeto, de modo a demonstrar que não são essenciais ao surgimento de um léxico:
•  A preexistência de uma teoria da mente dos outros agentes (pelo menos para o tipo de jogo de linguagem que foi usado neste experimento).
•  A preexistência de um conjunto de conceitos partilhado entre os vários agentes. Na verdade, tanto os conceitos como a linguagem emergem em paralelo e de forma interativa, no experimento.
•  Telepatia: os agentes não têm nenhuma forma de conhecer, a não ser pela linguagem, os sentidos que os outros agentes querem transmitir.
•  Controle centralizado da evolução da linguagem e consciência global, por parte dos agentes, da linguagem.
•  Coerência total: conceitos e léxico individuais variam de agente para agente; e o léxico é polissêmico.

***
Esse tipo de experimento é parte das investigações científicas modernas sobre a origem da linguagem. Em particular, esse experimento situa-se no campo conhecido como Vida Artificial (Artificial Life; ver Langton 1995) e tem (a) como hipótese específica que a linguagem é um sistema adaptativo complexo e (b) como metodologia a construção de sistemas artificiais destinados a desenvolver e testar teorias.
Qual a concepção de sistema cognitivo e de linguagem que informa trabalhos como esse? Para esboçar uma resposta a essa pergunta, vamos inicialmente examinar como, a partir dos estudos lingüísticos, pode-se conceber a conexão entre as palavras e seus sentidos. Facilmente visível no experimento acima relatado, a conexão entre palavras e sentidos tem um lado partilhado e distribuído – afinal, tratou-se de milhares de robôs, em comunidade. É o que trataremos a seguir.

Como as palavras adquirem seu sentido?
Como as palavras adquirem seu sentido? A pergunta é clássica e recorrente, e as respostas não são muitas. Na maioria das propostas, o sentido é visto como uma relação de correspondência entre propriedades do mundo e palavras. Para alguns, existe um conjunto de traços que, combinados, determinam o sentido de cada uma e de todas as palavras. Para outros, o sentido das palavras é indecomponível, e corresponde a todas as entidades que podem ser designadas por aquela palavra. O tipo de representação envolvido, em ambos os casos, está restrito a símbolos estáveis e discretos passíveis de manipulação serial por regras explícitas. Ou seja, o que se combina para formar unidades maiores são, obrigatoriamente, unidades simples, de significado bem definido e estático. Esse processo é o da manipulação de símbolos, seguindo a inspiração do modelo computacional clássico da mente.
Estas concepções têm dificuldades em dar conta de inúmeras instâncias em que é visível o aspecto criativo e plástico do sentido (ver, e.g., Clark 1996, Chafe 1994, Mondada & Dubois 1995). Por exemplo, Clark (1992) analisa o que ele chama de nonce sense , o fenômeno comum de uma palavra adquirir um sentido novo específico para um determinado contexto, e que possivelmente não se repetirá. Por exemplo, se um fotógrafo lhe diz “Faça um Napoleão para a câmera” , é muito provável que você assuma uma determinada pose para a foto, calcada na conhecida pose do imperador francês. Você só poderia ter assumido a pose requerida se tivesse ativado seus conhecimentos sobre Napoleão, em combinação com a situação em que o pedido fora feito, i.e., possivelmente a de um estúdio fotográfico (envolvendo retratos, poses, etc.). Quer dizer, o sentido de Napoleão como um determinado tipo de pose fotográfica não preexistia fixamente como parte da representação lexical desse nome; mais provavelmente, ele é estabelecido entre os participantes de uma interação específica. Um outro exemplo é o da já clássica ilusão semântica – casos em que não é facilmente perceptível a existência de erro factual em perguntas como “Quantos animais Moisés levou para a arca?”. Neste caso, a interpretação de Moisés certamente não recorreu a qualquer representação lexical determinada por eventuais conhecimentos históricos relativos apenas a Moisés – ao contrário, esses conhecimentos são substituídos, nessa situação, por conhecimentos mais genéricos sobre a história bíblica. Se as representações fossem estáveis e discretas, era de se esperar que, em ambos os casos, a representação acessada por cada participante da conversação fosse exatamente e sempre a mesma. Obviamente, esse não é o caso.
De modo geral, a dificuldade de explicar exemplos como os acima estão associadas à dificuldade das concepções clássicas em lidar com um objeto mutável, dinâmico e que se esquiva da axiomatização. Nas concepções alternativas, o sentido das palavras não é imanente a elas, mas se constitui no uso e nas histórias interativas onde elas aparecem (Clark, 1996). A criação de sentido na linguagem é uma atividade negociada, fruto da co-construção que nasce da interação entre sujeitos. Ou seja, o sentido não é imanente à relação entre as palavras e as coisas, mas surge de uma negociação necessária e incontornável. As relações de sentido não dependem, essencialmente, de um conjunto de características necessárias e suficientes que as licenciem. O uso de um item para designar um elemento do mundo depende, sempre, de um acordo entre os agentes.
Assim como as concepções de sentido como representações estáticas e discretas implicam uma noção de computação clássica e uma concepção de sistema cognitivo correspondente, as concepções de sentido como construção situada e partilhada entre agentes implica noções de computação e cognição diferentes. Vários esforços têm sido desenvolvidos para responder a essas demandas. Entre eles temos o Conexionismo (também conhecido como Redes Neurais; ver Elman et al. 1996 e Bechtel & Abrahamsen 2002), a Vida Artificial ( ALife ; ver Langton 1995) e as abordagens baseadas em Sistemas Dinâmicos (ver Port & van Gelder 1995).
O que essas várias abordagens cognitivas distintas têm em comum é exatamente a negação do simbólico como o nível correto para descrição dos processos cognitivos. Abrindo mão da estabilidade do símbolo, a cognição passa a ser concebida como processos que ocorrem de forma dinâmica, em que o tempo é essencial (Port & van Gelder 1995). São características centrais de sistemas cognitivos dessa ordem (a) serem auto-organizados, (b) adaptativos e (c) exibirem propriedades, configurações ou estruturas emergentes. Por exemplo, no caso de sistemas conexionistas, o processamento se dá pela alteração de um conjunto de padrões de ativação na rede ao longo de um processo de aprendizado. Num sistema conexionista, apresenta-se à rede um conjunto de exemplos extraídos do meio ambiente. A rede infere, da história de sua interação com estes exemplos, características relevantes que alteram as configurações internas da própria rede e lhe permitem, de modo adaptativo, aprender a desempenhar uma determinada tarefa.
A configuração final da rede emerge do processo de aprendizagem. Diz-se que um sistema complexo como este – um sistema composto de múltiplas entidades interagindo de forma não-linear – apresenta uma propriedade emergente quando esta é causada pela interação, de acordo com a dinâmica do sistema, de fatores de um nível inferior de análise, nenhum dos quais pode explicar o surgimento daquela propriedade. Um bom exemplo de emergência é apresentado por D'Arcy Thompson (apud Elman et al., 1996). A forma hexagonal do favo das colméias de abelhas não decorre de nenhum plano prévio que implica na escolha dessa forma. O que ocorre é que o trabalho de cada abelha, para maximizar a área do favo que está construindo, a leva a tentar construir uma forma circular. Contudo, ao redor de um círculo só é possível colocar seis outros círculos do mesmo tamanho – neste caso, outros favos sendo construídos por outras abelhas. As forças físicas (tensão superficial) interagem para deformar as esferas, levando-as a assumir a forma de hexágonos (veja a Figura 3). Não é “intenção” de qualquer abelha a construção de hexágonos. Entretanto, dada a interação entre as ações autônomas das abelhas e as restrições impostas pelo mundo físico, o hexágono é a única possibilidade resultante. O hexágono emerge.
Portanto, sistemas cognitivos dessa natureza permitem enxergar a relação entre palavras e seus sentidos como emergente do uso compartilhado da língua pelos agentes ao longo de uma história de interações (Clark 1996; Elman no prelo).
A análise de um fenômeno emergente enseja o entendimento desse fenômeno nos vários níveis de sua análise. No caso do sentido, é importante tentar compreendê-lo como a atribuição de sentido no nível dos processos internos dos agentes. Há muitos trabalhos que procuram explorar essa vertente, sem perder de vista seu aspecto situado. Entre eles, trabalhos como os de Tomasello (2003) e Clark (1992, 1996). Por outro lado, é importante também analisar o fenômeno no nível mais alto, isto é, compreender a atribuição de sentido como uma atividade conjunta e distribuída.
Nas abordagens tradicionais o sentido localiza-se na mente de cada agente cognitivo. Entretanto, numa concepção que privilegie o caráter plástico e negociado do sentido, este pode ser entendido como distribuído na comunidade de agentes em interação com o meio ambiente onde esta tarefa é desenvolvida, ao longo do tempo.

Quem pilota: o piloto ou os instrumentos de vôo?
Cada vez mais dependemos de sistemas automatizados. Quem dirige um carro equipado com freios ABS sabe que quem freia não é ele, mas o ABS. O motorista é o piloto do sistema ABS, o qual obedece ou ignora seus comandos de acordo com seu próprio “julgamento”. Algo parecido acontece na cabine de vôo de um avião comercial moderno. Por mais que isso possa nos deixar preocupados, não é totalmente verdadeiro supor que a equipe de vôo comanda, sozinha, o avião. A complexidade das tarefas envolvidas e o nível de automação existente nos aviões modernos fazem com que os cientistas que estudam a interação entre humanos e computadores tenham desenvolvido formas radicalmente novas de pensar a interação entre pilotos e os instrumentos da cabine de comando. Como veremos, eles pensam que a cognição é distribuída entre os seres humanos que constituem a equipe de vôo e o cockpit , o conjunto de instrumentos destinados a controlar o vôo. Ao estudar tais situações cooperativas estes cientistas lançam luz sobre características da cognição que estão presentes em muitas outras situações.
Vamos examinar uma das tantas situações normais de vôo (ver Hutchins, 1995). O pouso de uma aeronave depende da correta configuração da geometria das asas e da velocidade do avião. É preciso que a velocidade do avião seja baixa o suficiente para permitir o pouso com segurança. Entretanto, para determinadas configurações de asa, uma velocidade muito baixa pode significar a queda do aparelho por falta de sustentação. Portanto, uma tarefa essencial para a tripulação é adequar a configuração de asas à velocidade desejada para o pouso – isto é, uma velocidade baixa o suficiente que ainda permita às asas gerarem a sustentação necessária. Como se consegue isso?
Durante o vôo de cruzeiro, a tripulação dispõe de duas informações: de um lado, a configuração das asas é padrão, permitindo velocidades altas; por outro lado, o manual de vôo estabelece quais as mudanças devem ser introduzidas nessa configuração-padrão para o pouso, de forma que a sustentação seja mantida. Essa última informação é dada por uma tabela que lista as mudanças de configuração em função de limiares decrescentes de velocidade, tendo em vista o peso do avião no momento do pouso (ver Figura 4). Simplificadamente, a tarefa da tripulação é, durante a fase de aproximação da pista de pouso, diminuir a velocidade e alterar simultaneamente a configuração das asas.
Em qualquer momento da aproximação, ambos os membros da tripulação (piloto e co-piloto) têm, cada um à sua frente um dispositivo (Figura 5) que representa duas (ou mais) classes de informação. Primeiro, um ponteiro (preto) indica a velocidade do avião em relação ao ar. Segundo, um conjunto de 4 marcadores deslizantes externos (na figura, representados por 4 marcas negras sólidas, em 128, 155, 177 e 227 nós) indica as velocidades em que alterações de configuração das asas devem ser implementadas. É importante notar que o posicionamento dos marcadores deslizantes foi feito por acordo entre ambos os pilotos (cada um em seu respectivo mostrador) algum tempo antes de se iniciarem os procedimentos de aproximação para pouso. Nesse contexto, a posição de cada um dos marcadores adquire um sentido – a indicação mais clara disso sendo o sentido de perigo associado ao marcador que sinaliza a velocidade mais baixa.
Um segundo dispositivo que marca velocidades é um marcador deslizante interno, conhecido na linguagem da aviação, como salmon (na Figura 5, o marcador próximo à marca de 140 nós). Ele é posicionado pelo computador de bordo, e indica a velocidade que a aeronave deveria ter, em dado instante, em função de vários parâmetros de vôo, como a posição do acelerador, a própria geometria das asas, etc. Esse marcador tem uma forma característica: ele sinaliza, por meio de um pequeno ponteiro, a velocidade correta, e seu tamanho lateral, que recobre cerca de 10 nós, indica os limites inferior e superior da velocidade correta. O manual de vôo especifica que a velocidade real do aparelho não pode diferir em qualquer momento em mais de 5 nós (positiva ou negativamente) do que aquela indicada pelo salmon . A função do co-piloto é, verbalmente, avisar ao piloto quando a velocidade real exceder os 5 nós de diferença. O piloto, nessa circunstância, em geral checa visualmente a velocidade real e a correta, e toma as medidas necessárias para acelerar ou desacelerar o avião. Dessa maneira, a informação verbal do co-piloto adquire um sentido para o piloto. O co-piloto decide alertar sobre desvios de velocidade quando o ponteiro que indica a velocidade real não se posiciona dentro do espaço delimitado pelo tamanho do salmon . Isto é, o processo cognitivo que leva o co-piloto a decidir alertar sobre eventuais desvios de velocidade, neste ponto, não pode ser concebido como um conjunto de cálculos realizados internamente pelo co-piloto, mas sim com uma constatação, quase uma gestalt , da posição do ponteiro em relação ao corpo do salmon . Nesse sentido, esse dispositivo é parte do aparato cognitivo que pousa um avião.
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No sistema descrito acima, a memória das velocidades é uma propriedade do sistema como um todo: ela emerge da atividade dos pilotos e não é idêntica à memória dos pilotos (Hollan et al., 1999). Os marcadores de velocidade (que representam velocidades) são apenas um dos muitos dispositivos que participam no sistema funcional que dá conta das tarefas de memória. É importante notar que as propriedades dos sistemas funcionais que são mediados por representações externas (como as dos marcadores de velocidade) são diferentes daquelas que utilizam apenas representações internas; elas podem, por essa razão, depender de propriedades físicas do meio representacional externo. Fatores como a persistência da representação e a modalidade sensorial através da qual ela é acessada podem influenciar as propriedades cognitivas do sistema.
O contexto teórico a partir do qual se estuda, por exemplo, a memória das velocidades durante o pouso, toma sistemas cooperativos complexos, e não mentes individuais, como a unidade primitiva de análise. E a teoria que se constrói é explicitamente cognitiva na medida em que diz respeito a como informações são representadas, transformadas e transmitidas através do sistema. Na cabine do avião, a representação das informações é construída de maneira ao mesmo tempo distribuída entre vários dispositivos (alguns internos aos tripulantes e outros externos a eles) e negociada entre os diversos participantes. Não se pode dizer que o sentido das várias representações desse sistema distribuído esteja previamente especificado.
O que distingue, portanto, essa concepção distribuída da cognição é a adesão a dois princípios. O primeiro é postular que nem sempre o indivíduo, ou os processos internos a ele, constitui a unidade correta de análise. Uma visão distribuída da cognição procura pelos processos cognitivos onde quer que eles ocorram, singularizando-os apenas com base nas relações funcionais dos elementos que participam no processo. Um processo não é cognitivo apenas porque tem um cérebro como seu suporte, ou porque envolve vários cérebros. Como vimos acima, sistemas que podem ser caracterizados como sócio-técnicos , como a cabine de um avião, podem ser tomados como unidades cognitivas. O segundo princípio diz respeito aos mecanismos que participam dos processos cognitivos. Os enfoques clássicos tendem a assumir que os eventos cognitivos residem na manipulação de símbolos no interior de agentes. O enfoque distribuído envolve uma classe mais ampla de eventos cognitivos e não supõe que eles estejam limitados ao interior do cérebros de agentes individuais. No caso que mostramos acima, os processos de memória resultam de uma rica interação entre processos internos (aos pilotos), da manipulação de objetos (os marcadores de velocidade, por exemplo) e da troca de informações entre os pilotos. Além disso, as restrições físicas do ambiente fornecem mais do que simples ajuda nos processos de memória como, por exemplo, no caso das correções de velocidade pela observação do dispositivo chamado salmon . As restrições físicas reorganizam o sistema cognitivo distribuído, fazendo uso de diferentes conjuntos de processos internos e externos.
Portanto, há três aspectos distintos a se considerar quando se estuda a distribuição de processos cognitivos:
•  Os processos podem ser distribuídos entre membros de um grupo social;
•  Os processos podem envolver a coordenação entre estruturas internas e externas; e,
•  Os processos podem ser distribuídos no tempo, de forma que os produtos de eventos anteriores podem transformar a natureza de eventos ulteriores.
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Como vimos mais acima, a relação entre as palavras e seus sentidos tem sido estudada de duas formas. Ou como uma propriedade interna de indivíduos (ou mesmo de organismos), quer definidas de forma inata, ou pelo acúmulo da experiência. Ou como determinações ou possibilidades originárias do ambiente externo onde se movem indivíduos. O pequeno percurso que fizemos através de uma parte da literatura corrente pretendeu revelar uma forma original de abordar o problema da relação entre as palavras e seus sentidos, que pode representar uma oportunidade para ultrapassar a aparente dicotomia das soluções clássicas.
A possibilidade de estudar essas questões através de experimentos em robótica, de modelamento computacional e da etnografia de sistemas cognitivos permite instanciar sistemas compostos por agentes autônomos que precisam criar e negociar sentidos para, coletivamente, desempenhar tarefas. Nesses sistemas é possível, então, estudar com precisão a forma pela qual as co-determinações internas e externas da linguagem se estabelecem.

Referências
Bechtel, W. & Abrahamsen, A. (2002). Connectionism and the mind. Parallel processing, dynamics, and evolution in networks . Oxford: Blackwell.
Chafe, W. (1994). Discourse, Consciousness, and Time, Chicago: University of Chicago Press.
Clark. H. (1992). Arenas of Language Use . Chicago: University of Chicago Press.
_______ (1996). Using language . Cambridge: Cambridge University Press.
Elman (no prelo). An alternative view of the mental lexicon. Trends in Cognitive Science.
Elman, J., Bates, E. A., Johnson, M., Karmiloff-Smith, A., Parisi, D. & Plunkett, K. (1996). Rethinking Innateness: A connectionist perspective on development. Cambridge, Mass.: Bradford .
Hollan, J. D., Hutchins, E. & Kirsh, D. (1999). Distributed Cognition: A New Foundation for Human-Computer Interaction Research … TOCHI Special Issue on Human-Computer Interaction in the New Millennium.
Hutchins, E. (1995). How a cockpit remembers its speeds. Cognitive Science . 19, 265-288.
Langton, C. (1995). Artificial Life: An Overview . Cambridge, MA: The MIT Press.
Mondada, L. & Dubois, D. (1995). Construction des objets de discours et categorization: une approche des processus de référentiacion. In: Berrendonner, A. e Reichler-Béguelin, M-J. (orgs). (1995). Du Syntagme Nominal aux Objets-De-Discours. SN Complexes, Nominalisation, Anaphores . Neuchâtel: Institut de Linguistique de l'Université de Neuchâtel.
Port, R.F. & Van Gelder, T. (orgs.) (1995). Mind as Motion: Explorations in the Dynamics of Cognition . Cambridge, MA: The MIT Press.
Steels, L. and Kaplan, F. and McIntyre, A. and Van Looveren, J. (2002). Crucial factors in the origins of word-meaning. In: Wray, A., et.al. (eds.) (2002). The Transition to Language . Oxford University Press. Oxford.
Steels, L. and McIntyre, A. (1999). Spatially Distributed Naming Games. In: Advances in Complex Systems , vol. 1, nb. 4, pp. 301-323, Paris: Hermes Science Publications.
Tomasello, M. (2003). Origens Culturais da Aquisição do Conhecimento Humano . São Paulo: Martins Fontes.
Para outros experimentos, igualmente interessantes, veja o site http://www.aibo-europe.com/ .
É interessante notar que esse era também um experimento público. Em Paris, por exemplo, ao final de quatro meses de exposição, trezentas mil pessoas haviam interagido com os robôs.

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Mercado é coisa da sua cabeça

Diego Viana, Valor Economico, 9/12/2011

O vocabulário dos economistas começa a ganhar novos termos, na tentativa de explicar as flutuações dos mercados e o comportamento dos investidores. Oxitocina e testosterona, mesencéfalo e córtex frontal orbital, palavras recorrentes na linguagem dos neurocientistas, começam a circular entre um grupo de pesquisadores ainda pequeno, mas em expansão: os neuroeconomistas.

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Gilles Blanc-Brude: Psychologie et Anthropologie dans la Philosophie de Kant

La philosophie de Kant n’est pas le refus de toute psychologie. Malgré l’incertitude de la position systématique d’une connaissance empirique de l’esprit et l’impossibilité de lui appliquer les mathématiques pour la rendre rigoureusement scientifique, malgré la vacuité d’une déduction a priori des propriétés transcendantes de l’âme et l’inanité d’une fondation psychologique de la logique, de l’esthétique et de la morale, bref, malgré l’antipsychologisme et l’antinaturalisme, les thèmes et les questions psychologiques conservent pour Kant une légitimité et un intérêt. Les Leçons d’anthropologie et l’Anthropologie du point de vue pragmatique en
témoignent. L’étude des particularités de l’esprit humain et de ses facultés n’a jamais cessé de retenir l’attention d’un penseur qui aura été, dans la lignée des moralistes français, un grand observateur de la nature humaine. Ces textes sont pourtant souvent déconsidérés et tenus pour marginaux relativement aux grandes œuvres critiques. Nous pensons néanmoins que la psychologie développée par Kant dans le cadre de ses leçons d’anthropologie est inséparable du déploiement concomitant de la philosophie critique et qu’il faut par conséquent articuler ensemble ces deux dimensions de sa pensée.

http://www.paris-sorbonne.fr/fr/IMG/pdf/Position_de_these-7.pdf

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Interview with Dr. Henri Baruk (1996)

French psychiatrist, specialist in neuropsychiatry, and director at L’Ecole pratique des Hautes Etudes, Sorbonne, University of Paris, Henri Baruk is also a member of the National Academy of Medicine (Paris) and honorary member of the American International Academy.

Baruk believes in what he calls “moral psychiatry.” For this reason, he has studied the Talmud and the Bible in addition to medicine. It is Baruk’s philosophy that charity and justice, as well as science, must prevail if humans want to grow and even survive. Baruk is responsible for the creation of a neural laboratory for the study of catatonia at the Sorbonne.

His many books include Hebraic Civilization and the Science of Man (World Federation for Mental health, 1961); Tsedek: Where Modern Science is Examined and Where It is Attempted to Save Man from Physical and Spiritual Enslavement (Swan House, 1972); and the best seller Patients are People Like Us: The Experiences of Half a Century in Neuropsychiatry (Morrow, 1977).

Dr. Henri Baruk

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Thomas Le Bianic: LES PSYCHOLOGUES DU TRAVAIL DE L’AFPA : UN MARCHE PROFESSIONNEL FACE AUX TRANSFORMATIONS DE L’ACTION PUBLIQUE

L’action publique en direction des demandeurs d’emploi n’a cessé de s’intensifier depuis le milieu des années 1980, au gré des statistiques du chômage. La succession et la superposition des différentes politiques publiques de l’emploi et de l’insertion (PPEI) a donné naissance à un dispositif complexe, associant des établissements publics (ANPE), des associations placées sous la tutelle des pouvoirs publics (AFPA, missions locales pour l’emploi, PAIO, CIBC...) et une multitude d’organismes conventionnés sous-traitant les prestations de l’ANPE (cabinets de conseil en formation, associations d’insertion ou d’aide à la recherche d’emploi...). [lire le texte]

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CENTRE D'ETUDES ET RECHERCHES PSYCHOTECHNIQUES DE L'A.F.P.A. (CERP)

(Association nationale pour la formation professionnelle des adultes)

13, rue Paul-Chautard, Paris 15me.

Statut : Le C.E.R.P. est un organe constitué par les services de psychologie appliquée de l'A.F.P.A. Association régie par la loi de I9OI et chargée, sous la tutelle du ministère des Affaires sociales, de la gestion des centres publics de formation professionnelle d'adultes.

Fonctionnaires principaux : R. Bailet, Inspecteur général du travail et de la main-d'oeuvre, directeur de l'A.F.P.A. P. Orfila, Ingénieur, Directeur des services de formation de l'A.P.P.A.
M. Faisan, Chef des services de psychologie appliquée (C.E.R.P.).

Départements ou sections : Service enquêtes et recherches. Service études et méthodes. Section documentation-bibliothèque.

Ponctions : Le C.E.R.P. assure à la fois une fonction d'études et de recherches, une fonction de coordination technique des activités des centres psychotechniques régionaux de l'A.P.P.A. et une fonction de formation et de perfectionnement des psychologues de ces centres.

Activités : Etudes et recherches dans les domaines de la formation, de l'ergonomie (incluant certains aspects relatifs à la sécurité et l'hygiène du travail), des aspects psychosociologiques de
l'emploi, de la sélection et l'orientation professionnelle en général. Mise au point et contrôle régulier des méthodes de sélection et d'orientation utilisées par les centres psycho-techniques régionaux de l'A.P.P.A. Organisation de stages de perfectionnement destinés aux psychologues des centres régionaux de l'A.F.P.A. Activités de documentation et d'information.

Publications : Bulletin trimestriel d'études et recherches psychologiques.

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Héritier du Centre scientifique de la Main-d’œuvre (CSMO), le CERP est fondé en 1946 puis rattaché à l’ANIFRMO en 1949. A la fois structure de formation de sélectionneurs et centre scientifique de connaissance et d’expérimentation des méthodes psychotechniques, il est également chargé du contrôle technique des centres de sélection disséminés à travers la France. A partir de 1948, le développement des méthodes de sélection des candidats à une formation se fonde, au CERP, sur l’hypothèse que la sélection doit être effectuée non plus par rapport à des aptitudes spécifiques à chaque métier, mais en fonction d’une capacité générale d’apprentissage. Cette dernière s’apprécie grâce à une série de tests “papier-crayon” qui combinent évaluation de l’intelligence générale, de l’habileté manuelle et de l’influence des acquis scolaires. Grâce à ses travaux d’étude et de recherche à l’ANIFRMO et à l’extérieur, le CERP acquiert progressivement une renommée internationale. Ses travaux, notamment dans le domaine de la méthodologie statistique, de la psychométrie, de l’enseignement programmé, de la prévention des accidents et de l’ergonomie, seront largement relayés par sa revue, Le bulletin du CERP, qui sera publiée jusqu’en 1972 sous les auspices du CNRS (Centre national de la recherche scientifique). Progressivement, le CERP perd son autonomie et finit par être intégré en 1972 aux autres services de l’AFPA. [SOURCE]

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Georges Canguilhem: Que é a Psicologia? (1956)

Neste texto, originado de uma conferência apresentada em 18 de dezembro de 1956 no Collège Philosophique (Paris) e publicado dois anos mais tarde, Georges Canguilhem propõem-se a discutir a psicologia, investigando a existência (ou não) de uma unidade de projeto que pudesse conferir sua unidade eventual aos diferentes tipos de disciplinas tidas então como psicológicas. Para responder à questão “Que é a psicologia?”, considera necessário esboçar uma história da psicologia. Mas enfatiza: “uma história considerada apenas nas suas orientações e relacionada com a história da filosofia e das ciências, uma história necessariamente teleológica, uma vez que destinada a transferir, para a interrogação proposta, o sentido originário suposto nas diversas disciplinas, métodos ou empreendimentos, cuja disparidade atual legitima essa pergunta”.

impulso no26
www.unimep.br/phpg/editora/revistaspdf/impulso26.pdf

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Robert Pagès (1919-2007)

Site sur Robert Pagès, chercheur et psychologue social. Site about Robert Pagès, researcher and social psychologist

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Marko Marulic -- The Author of the Term "Psychology" (1964)

In technical and encyclopaedic literature one can find somewhat different information about when the word "psychology" was formed and who was the first to use it. In the main psychological and philosophical dictionaries, textbooks, and leading world encyclopaedias there are for the most part three different opinions of the origin of this term which, as the word denoting scientific or philosophic dealing with the phenomena of psychic (subjective, conscious) life, has now come into very wide use. All the three names connected with the formation of the term "psychology" are the names of the people of German origin from the 16th century. Two of them are of little significance: Rudolf Göckel and Otto Casmann, while the third is very famous and generally known: Filip Melanchton.

http://psychclassics.yorku.ca/Krstic/marulic.htm

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Lorem Ipsum

"All testing, all confirmation and disconfirmation of a hypothesis takes place already within a system. And this system is not a more or less arbitrary and doubtful point of departure for all our arguments; no it belongs to the essence of what we call an argument. The system is not so much the point of departure, as the element in which our arguments have their life."
- Wittgenstein

Lorem Ipsum

"Le poète ne retient pas ce qu’il découvre ; l’ayant transcrit, le perd bientôt. En cela réside sa nouveauté, son infini et son péril"

René Char, La Bibliothèque est en feu (1956)


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