The Italian Difference: Between Nihilism and Biopolitics


Description
This volume brings together essays by different generations of Italian thinkers which address, whether in affirmative, problematizing or genealogical registers, the entanglement of philosophical speculation and political proposition within recent Italian thought. Nihilism and biopolitics, two concepts that have played a very prominent role in theoretical discussions in Italy, serve as the thematic foci around which the collection orbits, as it seeks to define the historical and geographical particularity of these notions as well their continuing impact on an international debate. The volume also covers the debate around ‘weak thought’ (pensiero debole), the feminist thinking of sexual difference, the re-emergence of political anthropology and the question of communism. The contributors provide contrasting narratives of the development of post-war Italian thought and trace paths out of the theoretical and political impasses of the present—against what Negri, in the text from which the volume takes its name, calls ‘the Italian desert’.
Contents
Antonio Negri, 'The Italian Difference'
Pier Aldo Rovatti, 'Foucault Docet'
Gianni Vattimo, 'Nihilism as Emancipation'
Roberto Esposito, 'Community and Nihilism'
Matteo Mandarini, 'Beyond Nihilism: Notes Towards a Critique of Left-Heideggerianism in Italian Philosophy of the 1970s'
Luisa Muraro, 'The Symbolic Independence from Power'
Mario Tronti, 'Towards a Critique of Political Democracy'
Alberto Toscano, 'Chronicles of Insurrection: Tronti, Negri and the Subject of Antagonism'
Paolo Virno, 'Natural-Historical Diagrams: The ‘New Global’ Movement and the Biological Invariant'
Lorenzo Chiesa, 'Giorgio Agamben's Franciscan Ontology'

Authors, editors and contributors
Lorenzo Chiesa and Alberto Toscano

http://www.re-press.org/content/view/66/38/

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Pierre Clastres: Archeology of Violence

http://i292.photobucket.com/albums/mm7/catatando/9780936756950-f30.jpg

Pierre Clastres broke up with his mentor Claude Levi-Strauss to collaborate with Gilles Deleuze and Felix Gattari on their Anti-Oedipus. He is the rare breed of political anthropologist—a Nietzschean—and his work presents us with a generalogy of power in a native state. For him, tribal societies are not Rousseauist in essence; to the contrary, they practice systematic violence in order to prevent the rise in their midst of this “cold monster”: the state. Only by waging war with other tribes can they maintain the dispersion and autonomy of each group. In the same way, tribal chiefs are not all-powerful; to the contrary, they are rendered weak in order to remain dependent on the community. In a series of groundbreaking essays, Clastres turns around the analysis of power among South American Indians and rehabilitates violence as an affirmative act meant to protect the integrity of their societies. These “savages” are shrewd political minds who resist in advance any attempt at “globalization.”




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Michel Foucault à l'Université Catholique de Louvain en 1981



Entrevue de Michel Foucault à l'Université Catholique de Louvain en 1981. Il y traite notamment de sa démarche et de sa conception du pouvoir, de la gouvernementalité.

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Abbagnano: Noese e Noema

NOESE (ai. Noesis). Na terminologia de Husserl, o aspecto subjetivo da vivência, constituído por todos os atos de compreensão que visam a apreender o objeto, tais como perceber, lembrar, imaginar, etc. (Ideen, I, § 92). O adjetivo correspondente é noétíco.

NOEMA (ai. Noema). Na terminologia de Husserl, o aspecto objetivo da vivência, ou seja, o objeto considerado pela reflexão em seus diversos modos de ser dado (p. ex., o percebido, o recordado, o imaginado). O N. é distinto do próprio objeto, que é a coisa; p. ex., o objeto da percepção da árvore é a árvore, mas o N. dessa percepção é o complexo dos predicados e dos modos de ser dados pela experiência: p. ex., árvore verde, iluminada, não iluminada, percebida, lembrada, etc. (Ideen, 1, § 88). O adjetivo correspondente é noemático. [Dicionário de Filosofia]

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Carlos Morujão: Noese e Noema

O campo dos fenômenos puros revela-se ainda uma corrente heracliteana de fenômenos, encontrando-se a consciência, portanto, em permanente fluir, durando e ordenando-se num contínuo indefinido de durações. A temporalidade, característica geral de todas as vivências, é uma temporalidade imanente, puramente vivida. A consciência dá-se num presente que vem de um passado e segue para um futuro. A vivência é unificada por este fluxo temporal.

Assim, a temporalidade é uma forma necessária da consciência que une as vivências umas às outras. O tempo desempenha, por isso, uma função unificadora relativamente à consciência; faz dela uma única vivência designativa do mesmo objeto; postula, no entanto, uma síntese ainda mais íntima entre os elementos constitutivos da própria vivência.

Essa unificação leva-se a efeito pela intencionalidade. A intencionalidade é como um raio de luz, que provém do eu e se dirige ao objeto; simplesmente tem, no seu caminho, de animar, por assim dizer, substratos que expliquem a diversidade dos objetos de que tenho consciência; são esses substratos os dados sensíveis, também chamados hiléticos, ou, simplesmente, hilé, em si mesmos desprovidos de intencionalidade (sons, cores, sensações em geral). A intencionalidade enforma-os, torna-os e também intencionais, pois adquirem referência intencional ao objeto transcendental que determinam.

Considerada como enformante, a intencionalidade é a noese; a noese e os seus elementos materiais constituem a parte «real» da vivência. Porém, esses mesmos dados hiléticos, tornados intencionais, são polarizados em ordem à designação imediata do objeto. Surge deste modo a vivência orientada para o objeto — o noema. Este noema transcende, de certo modo, a vivência, não pertence aos seus constituintes reais; é a componente «irreal» ou «intencional», porque tende para o objeto que designa.

Finalmente, há a considerar o objeto. Examinando o noema, encontramos que nele reside um conteúdo, ou seja o seu sentido, através do qual o noema se relaciona com o seu objeto. Husserl apresenta como exemplo, o caso de uma árvore. Essa árvore não se dá na consciência isoladamente, mas revestida por um certo número de elementos que designam diretamente a árvore ou dão à árvore uma modalidade característica. Este conjunto, assim formado, representa o noema completo. A camada exterior dos elementos, que afetam o modo como se tem consciência do objeto, neste caso, da árvore, são os caracteres noemáticos. Quer dizer, a árvore pode tornar-se consciente, não só pela presença, no caso de uma percepção, mas também como recordada, imaginada, etc. Estes caracteres noemáticos exprimem os modos, segundo os quais se apresenta o objeto como tal.

A estes caracteres noemáticos juntam-se os caracteres de ser (Seincharaktere) que indicam o modo como o objeto é concebido no seu mesmo ser. Husserl designa-os por correlatos noemáticos dos caracteres (noéticos) de crença (Glaubenscharaktere) ou caracteres dóxicos, pois na atitude transcendental a certeza ou dúvida relativamente à existência do objeto só pode conceber-se como uma espécie de crença ou de opinião.

Os caracteres noemáticos caracterizam o objeto, neste caso a árvore, no modo de se apresentar. Podem variar e o objeto permanecer o mesmo. Por seu turno o objeto é determinado por uma série de elementos que compreende os dados hiléticos, enquanto projetados no noema, devido à intencionalidade e que se podem manter idênticos através dos caracteres noemáticos. Esses elementos é que nos determinam o objeto e constituem o núcleo noemático em sentido objetivo. Neles e por eles é que o objeto se encontra significado na sua qualidade de objeto consciente. [fonte]

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Paul Häberlin: Philosophische Anthropologie, Antropología filosófica (1950)

Actas del Primer Congreso Nacional de Filosofía (Mendoza 1949), Universidad Nacional de Córdoba, Buenos Aires 1950, tomo II, págs. 1034-1044.

(Sesiones: III. Filosofía de la existencia.)

http://www.filosofia.org/aut/003/m49a1034.htm

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Otto Friedrich Bollnow: La Philosophie de la vie à l'epoque moderne

Le terme « philosophie de la vie » est déjà ancien en Allemagne, bien qu'il ait eu d'abord une
signification assez imprécise. L'homme du XVIIIe siècle parle déjà de sa philosophie de la vie
et il entend par là, en général, les directives qu'il s'est fixées au sujet de son comportement
dans la vie. Quoiqu'une certaine opposition à l'égard de la « philosophie scolaire », étrangère à
la vie, puisse être déjà rencontrée, le nom de « philosophie » n'est toutefois entendu ici que
symboliquement, pour désigner des formes de réflexion plus libres portant sur la vie et sur le
monde.

Par contre le concept de philosophie de la vie put seulement se développer, pour atteindre une
signification précise, au moment où le concept de vie lui-même fut accepté fermement dans
l'histoire de l'esprit. Cela se produisit (si l'on considère cette évolution, typique pour l'Al-
lemagne, sous l'angle de la pensée allemande) surtout vers la fin du XVIIIe siècle, avec la
génération du Sturm und Drang, chez le jeune Herder, Goethe et le jeune Jacobi. En face de la
vie, de l'époque précé- [page 263 / page 264] dente, solidifiée en des formes fixes en face des
conventions sociales et de l'érudition d'un savoir étranger à la vie, en face des artifices d'une
vie superficielle, on aspirait à revenir à une authenticité et à une nouvelle im-médiateté de la
vie. La critique de la civilisation est devenue, depuis lors, le soubassement durable de toute
philosophie de la vie et c'est dans cette mesure qu'on peut faire figurer l'œuvre de Rousseau au
nombre des conditions préliminaires les plus importantes de la philosophie de la vie, bien que
le mot « vie » n'ait pas encore chez Rousseau une signification maîtresse. Rappelons
seulement, en passant, les phrases bien connues par lesquelles débute son Emile: « Tout est
bien, sortant des mains de l'Auteur des choses; tout dégénère entre les mains de l'homme... il
ne veut rien tel que l'a fait la nature, pas même l'homme; il le faut dresser pour lui comme un
cheval de manège; il le faut contourner à sa mode, comme un arbre de son jardin». Ainsi on
aspirait à échapper à l'existence artificielle de la civilisation, pour revenir à une nature pure et
originelle, et c'est celle-ci qui caractérise ensuite la nouvelle génération du Sturm und Drang
en Allemagne, génération dont le concept fondamental était la vie.

http://www.otto-friedrich-bollnow.de/doc/PhilosophiedelaVie.pdf

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Roberto Machado: Nietzsche e o renascimento do trágico

Há, em O nascimento da tragédia, uma reflexão sobre o valor da Grécia para a Alemanha, que insere o primeiro livro de Nietzsche no projeto de política cultural iniciado, em meados do século XVIII, por Winckelmann, pensador que teve papel decisivo na maneira de pensar os gregos e sua importância para a educação estética da Alemanha.

Winckelmann, o criador da história da arte, foi o primeiro a dar ao classicismo alemão o seu ideal estético, ao defender tanto a superioridade da arte grega — arte que tem como essência a beleza — sobre a arte de todos os tempos, quanto a necessidade de imitá-la; foi o primeiro de uma série de teóricos e artistas dominados pela "nostalgia da Grécia", isto é, em primeiro lugar, guiados pelaconcepção dos antigos como sendo fundamentalmente os gregos — e não mais os romanos, como era para os italianos e franceses — e, em segundo lugar, convencidos da importância dos gregos antigos para a formação da Alemanha.

Assim, Winckelmann marcou decisivamente sua época ao expor, em 1755, em Reflexões sobre a imitação da arte grega na pintura e na escultura, duas idéias de grande futuro no que diz respeito à relação da Alemanha com a Antigüidade: por um lado, que o ideal da arte é "uma nobre simplicidade e uma serena grandeza", vendo em Apolo o modelo supremo da arte grega; por outro, que o único caminho para os alemães tornarem-se grandes, e se possível inimitáveis, seria a imitação dos antigos. Isto é, só deixando de imitar a imitação latina dos gregos, a do renascimento italiano ou a do classicismo francês, que sempre os teria desfigurado, a arte poderia contribuir para o nascimento da nação alemã, para a constituição da identidade alemã.

Essas idéias exerceram grande influência sobre os intelectuais alemães. Goethe, por exemplo, foi profundamente marcado pelo projeto de Winckelmann, pensando inclusive o ideal de beleza não só em relação à pintura e à escultura, mas também, e principalmente, em relação à poesia ou à arte dramática. A partir de sua viagem à Itália, realizada entre 1786 e 1788, ele começa a valorizar a noção de bela forma antiga e a querer se aproximar dela tanto pela reflexão teórica quanto pela criação artística. Podemos notar, pelos pequenos textos teóricos que escreveu a partir de então, que ele pensa as leis da arte como atemporais, isto é, que a natureza da arte é constante e imutável, mas, como em Winckelmann, essa atemporalidade significa para ele que a arte é determinada por um ideal já encarnado em algumas obras do passado, ou, mais precisamente, que o ideal da arte em estado puro já se encontra nas obras de arte gregas, pois os gregos são "um povo que possuía por natureza a perfeição", "uma perfeição inatingível".1

Mas é o texto que escreveu sobre Winckelmann, em 1805, que apresenta, de forma conceitualmente mais esclarecedora, em que consiste seu próprio elogio da Grécia. O que pensa Goethe nesse momento é que a sorte dos gregos foi articular, de modo equilibrado, todas as suas qualidades, conjugar a totalidade de suas forças, sentindo-se no mundo como um grande todo, impregnado de beleza, dignidade e grandeza. As forças do grego antigo não estavam cindidas, fragmentadas; ele era um ser uno consigo mesmo e em unidade com a totalidade do mundo. A Grécia de Goethe é um mundo em que o homem podia desenvolver todas as suas virtualidades, tornar-se um homem completo, em harmonia consigo mesmo e com o mundo.

Além disso, ao ressaltar a perfeição do modo grego de criação, Goethe exige que toda arte se submeta ao ideal da arte em estado puro, encarnado pela arte grega. Daí ele dizer: "Devemos nos afastar o menos possível da terra clássica", ou "Que cada um seja um grego a seu modo!", ou ainda "Se procuramos modelos (...) é preciso sempre voltar aos gregos, cujas obras representam sempre o homem belo."2 O que faz de Goethe, na interpretação de Schiller, um alemão que, pela força de seu pensamento, deu à sua imaginação o que a realidade moderna lhe recusava, engendrando, pela reflexão, uma Grécia. Goethe seria, assim, um espírito grego perdido nas brumas do norte, no mundo nórdico, um poeta clássico vivendo na modernidade.

Schiller, por sua vez, também critica a modernidade a partir de uma reflexão sobre a origem. Tal como ele vê o problema em Poesia ingênua e sentimental, o grego antigo vivia em profunda união com a natureza, sem fazer uma distinção radical entre natureza e cultura, sendo uno consigo mesmo e feliz no sentimento de sua humanidade. Já o homem moderno — que destrói ou esquece a natureza, ou para quem a natureza desapareceu da humanidade, e só é reencontrada em sua verdade no mundo inanimado — é um ser fragmentado, dividido, cindido de si mesmo e infeliz em sua experiência da humanidade. Daí por que os artistas modernos, rememorando as origens, devem contribuir para realizar a harmonia perdida entre o homem e a natureza, a liberdade e a necessidade. A Grécia, na qual a natureza e a humanidade eram unas em suas diferenças, é, assim, para Schiller, o modelo de um acordo que é preciso reconquistar.

O nascimento da tragédia, que se refere aos gregos como "nossos luminosos guias",3 além de reconhecer que foi com Winckelmann, Goethe e Schiller que o espírito alemão entrou na escola dos gregos, chega a lamentar o enfraquecimento desse projeto de imitação da cultura grega para a constituição da cultura alemã.4 O que mostra que continua vivo em Nietzsche o projeto de Winckelmann, Goethe e Schiller a respeito da importância de uma reflexão sobre os gregos para repensar o mundo moderno e a obra de arte moderna. Como eles, o jovem Nietzsche também é um pensador que entende melhor sua época por meio da Grécia antiga e, por isso, escreve um livro cheio de esperança em relação à germanidade, como ele mesmo diz.

Mas isso não significa que Nietzsche aceite os dados iniciais do problema, isto é, a caracterização da Grécia pela serenidade, ou pela beleza, como se os gregos tivessem sido exclusiva ou essencialmente apolíneos, conforme sugere a expressão de Winckelmann que define a essência da arte grega como "uma nobre simplicidade e uma serena grandeza". Criticando os pensadores que permaneceram com essa visão do problema, Nietzsche relacionará a serenidade com um aspecto mais profundo da Grécia: o dionisíaco. Se, então, ele se distancia do que pensadores como Winckelmann e Goethe pensaram sobre a arte grega, ao defini-la pela serenidade, é por considerar que a Grécia só pode ser pensada a partir do fundo asiático do dionisíaco, que não teria sido levado em conta por eles.

A busca de outro princípio constitutivo do mundo grego — além da serenidade — não é originalidade de Nietzsche. É antes uma constante de toda a interpretação da Grécia desde o nascimento do trágico, isto é, desde a interpretação filosófica, ontológica, metafísica, da tragédia como apresentando uma visão de mundo trágica — o que se deu com o idealismo absoluto, no final do século XVIII. É assim, por exemplo, que a primeira interpretação ontológica de uma tragédia grega — a que Schelling dá, em 1795, de Édipo rei — se baseia na oposição e na reconciliação da liberdade e da necessidade. É assim também que a interpretação hegeliana de Antígona é feita a partir da oposição entre a família e o Estado. É ainda assim que Hölderlin interpreta Édipo e Antígona a partir da oposição entre a composição orgânica representada pela sobriedade e o tumulto aórgico originário. Se, portanto, o antagonismo de princípios marca toda a reflexão moderna sobre a tragédia, a originalidade de Nietzsche é formular essa oposição como sendo a do apolíneo e do dionisíaco considerados como princípios de uma estética metafísica. O que são esses princípios?

O apolíneo é o princípio de individuação, um processo de criação do indivíduo, que se realiza como uma experiência da medida e da consciência de si. E se Nietzsche dá a esse processo o nome de apolíneo é porque, para ele, Apolo — deus da beleza, cujos lemas são "Conhece-te a ti mesmo" e "Nada em demasia" — é a imagem divina do princípio de individuação. O que se pode compreender pelas duas propriedades que ele encontra em Apolo: o brilho e a aparência. Apolo é o brilhante, o resplandecente, o solar; ao mesmo tempo, conceber o mundo apolíneo como brilhante significa criar um tipo específico de proteção contra o sombrio, o tenebroso da vida: a proteção pela aparência. A bela aparência apolínea é uma ocultação. Os deuses e heróis apolíneos são aparências artísticas que tornam a vida desejável, encobrindo o sofrimento pela criação de uma ilusão. Essa ilusão é o princípio de individuação. Assim, o indivíduo, essa criação luminosa e aparente, é o modo apolíneo de triunfar do sofrimento pela ocultação de seus traços.

Já o dionisíaco, tal como se dá no culto das bacantes — cortejos orgiásticos de mulheres, vindas da Ásia, que, em transe coletivo, dançando, cantando e tocando tamborins, nas montanhas, à noite, em honra de Dioniso, invadiram a Grécia —, em vez de um processo de individuação, é uma experiência de reconciliação das pessoas umas com as outras e com a natureza, uma harmonia universal e um sentimento místico de unidade. A experiência dionisíaca é a possibilidade de escapar da divisão, da individualidade, e se fundir ao uno, ao ser; é a possibilidade de integração da parte à totalidade. Ao mesmo tempo, o dionisíaco significa o abandono dos preceitos apolíneos da medida e da consciência de si. Em vez de medida, delimitação, calma, tranqüilidade, serenidade apolíneas, o que se manifesta na experiência dionisíaca é a hybris, a desmesura, a desmedida. Do mesmo modo, em vez da consciência de si apolínea, o dionisíaco produz a desintegração do eu, a abolição da subjetividade, o entusiasmo, o enfeitiçamento, o abandono ao êxtase divino, à loucura mística do deus da possessão.

Entretanto, a última palavra de Nietzsche a respeito do nascimento da tragédia não é o antagonismo entre o apolíneo e o dionisíaco: é a aliança entre os dois princípios metafísicos, a reconciliação entre as duas pulsões estéticas da natureza. E, nesse sentido, um dos pontos mais importantes da interpretação é a ligação entre o culto dionisíaco e a arte trágica, ou a hipótese de que a tragédia nasce dessa multidão encantada que se sente transformada em sátiros e silenos — como se vê no culto das bacantes —, ao imitar, simbolizar o fenômeno da embriaguez dionisíaca, responsável pelo desaparecimento dos princípios apolíneos criadores da individuação: a medida e a consciência de si.

E, para que essa hipótese se revele em toda sua força e originalidade, é preciso salientar os dois principais componentes dessa teoria da tragédia. Em primeiro lugar, o que torna a arte trágica possível é a música: a tragédia nasce do espírito da música, a origem da tragédia é a possessão causada pela música. Inspirado em Schopenhauer e em Wagner, que interpretaram a música como expressão imediata e universal da vontade entendida não como vontade individual, mas como essência do mundo, Nietzsche pensará a música como uma arte essencialmente dionisíaca e, portanto, o meio mais importante de se desfazer da individualidade.

Entretanto, ele acrescenta à música — componente dionisíaco da tragédia — seus componentes apolíneos: a palavra e a cena. O que o leva a definir a tragédia como um coro dionisíaco que se descarrega em um mundo apolíneo de imagens. Esse mundo de imagens criado pelo coro é o mito trágico, que apresenta a sabedoria dionisíaca através do aniquilamento do indivíduo heróico e de sua união com o ser primordial, o Uno originário.

Com que finalidade a tragédia apresenta apolineamente a sabedoria dionisíaca? Para fazer o espectador aceitar o sofrimento com alegria, como parte integrante da vida, porque seu próprio aniquilamento como indivíduo em nada afeta a essência da vida, o mais íntimo do mundo. Assim, fundada na música, a tragédia, expressão das pulsões artísticas apolínea e dionisíaca, é a atividade que dá acesso às questões fundamentais da existência.

Essa valorização metafísica da tragédia grega, que teria sido invalidada pelo racionalismo socrático, de que a modernidade é mais uma metamorfose do que uma crítica radical, implicará que a imitação dos gregos só pode ser, para Nietzsche, um renascimento de uma arte dionisíaca. O §16 do livro diz que o renascimento da tragédia é uma das "bem-aventuranças para o ser alemão". O §19 prevê que "tudo o que chamamos agora de cultura, educação, civilização terá algum dia de comparecer perante o infalível juiz Dioniso." E o §23 termina dizendo: "E se o alemão olhar, hesitante, à sua volta, em busca de um guia que o reconduza de novo à pátria há muito perdida, cujos caminhos e sendas ainda mal conhece, que ouça o chamado deliciosamente sedutor do pássaro dionisíaco que sobre ele se balouça e quer indicar-lhe o caminho para lá."5

Essa referência à Alemanha como a pátria perdida a que se poderá ter acesso pelo dionisíaco é muito importante. Pois, com isso, Nietzsche quer dizer que, se o gênio alemão "viveu a serviço de pérfidos anões", no mais profundo de si mesmo ele se conservava intacto, com toda a sua força dionisíaca. Como se o espírito trágico existente na Grécia pré-socrática, em vez de ter sido totalmente aniquilado pelo espírito socrático, tivesse se mantido vivo, embora reprimido, na profundeza adormecida do espírito alemão.

Daí Nietzsche acreditar, e enunciar no §23 do livro, que "o núcleo puro e vigoroso do ser alemão expulsará os elementos estranhos implantados à força, tornando possível que o espírito alemão retorne a si mesmo reconscientizado". O que será repetido com todas as letras em uma passagem do final do §24, cheia de alusões a personagens de mitos germânicos, retomados por Wagner e interpretados por Nietzsche como mitos dionisíacos: "O espírito alemão intacto em sua esplêndida saúde, profundidade e força dionisíaca, qual um cavaleiro prostrado em sono, repousava e sonhava em um abismo inacessível: abismo de onde se eleva até nós a canção dionisíaca, para nos dar a entender que também agora esse cavaleiro alemão ainda sonha o seu antiqüíssimo mito dionisíaco em visões austeras e beatíficas. Que ninguém creia que o espírito alemão haja perdido para sempre a sua pátria mítica, posto que continua compreendendo com tanta clareza as vozes dos pássaros que falam daquela pátria. Um dia ele se encontrará desperto, com todo o frescor matinal de um sonho imenso: então matará o dragão, aniquilará os pérfidos anões e acordará Brunhilda, e nem mesmo a lança de Wotan poderá barrar o seu caminho." Continuidade entre o mito trágico grego e o mito alemão, que faz do nascimento de uma era trágica do espírito alemão "apenas um retorno a ele mesmo, um bem-aventurado reencontrar-se a si próprio, depois que, por longo tempo, enormes poderes conquistadores, vindos de fora, haviam reduzido à escravidão de sua forma o que vivia em desamparada barbárie da forma" como é dito no final do §19 do livro.

Se, com Winckelmann, Goethe e Schiller, o espírito alemão entrou na escola dos gregos, por que Nietzsche pensa que até mesmo "Goethe e Schiller não conseguiram abrir a porta mágica que dá acesso à montanha encantada do helenismo"?6 A resposta é simples. Porque não usaram uma boa chave para isso: a música, ou melhor ainda, a tragédia musical. A esse respeito, a originalidade de Nietzsche não é propriamente sua concepção da música, que no fundo, é bastante semelhante, nessa época, às de Schopenhauer e Wagner. Sua originalidade foi, inspirado na concepção schopenhaueriana da música e na idéia wagneriana de drama musical, valorizar a música para pensar a tragédia grega como uma arte fundamentalmente musical, ou como tendo origem no espírito da música.

Mas sua originalidade está também em ter articulado Schopenhauer com o movimento de utilização da Grécia para pensar a cultura alemã, através de um renascimento do espírito trágico, idéia que não existe em Schopenhauer. E o elo que possibilitou isso foi certamente Wagner. Que se pense, a esse respeito, no Beethoven, livro da mesma época que O nascimento da tragédia, no qual Wagner destaca a importância incomparável que a música tem para o desenvolvimento da civilização alemã.

Assim, no início de sua produção intelectual, a Grécia da tragédia musical é o principal motivo da esperança de Nietzsche na Alemanha. Pois não é ele quem diz que na Antigüidade helênica "reside a esperança de uma renovação e de uma purificação do espírito alemão pelo jogo mágico da música"? Idéia que é formulada com toda a força de uma volta aos gregos, no final da conferência "O drama musical grego": "O que esperamos do futuro já foi uma vez realidade, em um passado que tem mais de dois mil anos." Esse vínculo entre o renascimento alemão da Antigüidade grega e a música, considerada como uma condição essencial do despertar do espírito dionisíaco, aparece até mesmo no curioso elogio ao profundo, corajoso e inspirado "coral de Lutero, como primeiro chamariz dionisíaco", no §23 do livro. Mas o vínculo é ainda mais evidente quando, no §19, Nietzsche defende que, do fundo do espírito alemão, a música alemã alçou-se "em seu poderoso curso solar, de Bach a Beethoven, de Beethoven a Wagner".

Se O nascimento da tragédia é um livro profundamente alemão, que fala de "problema alemão", "esperanças alemãs", "gênio alemão", "espírito alemão", "ser alemão", é devido à importância que dá à música. O §6 da "Tentativa de autocrítica", quinze anos depois, lamenta que o livro tenha estragado o problema grego misturando-o a coisas modernas por ter fabulado, "com base nas últimas manifestações da música alemã, a respeito do ser alemão (...)." Essa autocrítica posterior evidencia, no entanto, o quanto o livro estava impregnado não só por idéias germânicas como pela idéia de que a música, "demônio surgido de profundezas inexauríveis", "único espírito de fogo limpo, puro e purificador", é a força a partir da qual Nietzsche faz sua crítica à cultura alemã.

O nascimento da tragédia estabelece a origem musical da tragédia grega, e sua importância como metafísica artística, para legitimar a arte wagneriana, fazendo com que o renascimento do espírito dionisíaco tenha, para Nietzsche, como expressão mais forte, o drama musical wagneriano. Vendo Wagner como um novo Ésquilo, ou na ópera de Wagner o renascimento da tragédia grega, O nascimento da tragédia vai à arte trágica para explicar a arte wagneriana. Assim como a tragédia nasce da música dionisíaca, Wagner é o renascimento do dionisíaco, ou melhor, da tragédia grega, na modernidade, com sua obra de arte total. Daí Nietzsche anotar em 1870: "Reconheço na vida grega a única forma de vida; e considero Wagner como a tentativa mais sublime do ser alemão na direção de seu renascimento."7

Se O nascimento da tragédia é um centauro nascido do cruzamento da arte, da ciência e da filosofia, como disse o seu autor, é em uma de suas passagens mais poéticas que se revela de modo mais veemente o tom militante em favor do renascimento do trágico pela força criadora do dionisíaco musical. Tom militante que insere o primeiro livro de Nietzsche no projeto de política cultural iniciado, na Alemanha, por Winckelmann, Goethe e Schiller, principalmente, e tinha, na época de Nietzsche, Wagner como seu principal representante. Estou pensando na passagem, inspirada nas Bacantes de Eurípides, em que Nietzsche sugere a seus amigos leitores: "Coroai-vos de hera, tomai o tirso na mão e não vos admireis se tigres e panteras se deitarem, acariciantes, a vossos pés. Ousai ser homens trágicos: pois sereis redimidos. Acompanhareis, da Índia até a Grécia, a procissão festiva de Dioniso! Armai-vos para uma dura peleja, mas crede nas maravilhas de vosso deus!"8

* Convidado a participar deste número da Kriterion.
1 Introdução aos Propileus. In: GOETHE. Écrits sur l'art. Paris: Flammarion, 1983. p. 144. [ Links ]
2 "Introdução aos Propileus" e "O antigo e o moderno", op. cit., p. 144, 273; GOETHE, Conversações com Eckermann, 31 de janeiro de 1827, tr. fr. Paris: Gallimard, 1988. p. 206.
3 O nascimento da tragédia, §23.
4 O nascimento da tragédia, §20.
5 Alusão ao pássaro do Siegfried de Wagner.
6 O nascimento da tragédia, §20.
7 NIETZSCHE, Friedrich. Fragmento póstumo 9[34], de 1870. In: Sämtliche Werke. Kritische Studienausgabe. Editada por G. Colli e M. Montinari. Berlim/Nova Iorque: Walter de Gruyter, 1980. p. 284. v. 7; tr. fr., Oeuvres philosophiques complètes. Paris: Gallimard, 1977. p. 372. [ Links ]
8 O nascimento da tragédia, final do §20.



MACHADO, Roberto. Nietzsche e o renascimento do trágico. Kriterion [online]. 2005, vol.46, n.112 [cited 2011-01-12], pp. 174-182 . Available from: . ISSN 0100-512X. doi: 10.1590/S0100-512X2005000200003.

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Babette Babich: A Philosophical Shock’: Foucault’s Reading of Heidegger and Nietzsche

Although there is no lack of efforts to read Foucault and Nietzsche together or indeed to align Foucault and Heidegger, Foucault scholarship overall tends to be split on these same terms. The author argues that the opposition is misleading for the complicated reason that Foucault’s Heidegger can only be understood on Nietzschean terms while and at the same time, Foucault’s Nietzsche only takes place by way of Heidegger albeit (and this point simply cannot be overemphasized) a very Frencophone reading of Heidegger.

Michel Foucault analyzes the formation of the ‘subject’ or ‘self’ in a post-Nietzschean, post-Heideggerian, quasi-Marxist, or today, we had better correct that to say, just because few scholars have any desire to be named Marxist: simply, vaguely leftist context,1 exceeding what has been called the poststructuralist as much as the postmodern moment by means of different epistemic discourses of imitation, representation, but also rhetorical or ‘stylistic’ discourses and including practical or therapeutic analysis. Additionally, to recall the important question of practice and the increasingly popular language of philosophical therapy, more than Nietzsche’s vision of either convalescence (and nihilism) or healing or indeed of the philosopher as lawgiver or a physician of culture, Foucault is illuminated by Pierre Hadot’s analysis of the Stoic ‘art’ of philosophy as ‘a way of life.’ (...)

Babich, Babette, ""‘A Philosophical Shock’: Foucault’s Reading of Heidegger and Nietzsche." In: C. G. Prado, ed., Foucault’s Legacy
(London: Continuum, 2009), pp. 19-41." (2009). Articles, Book-Chapters, and Essays by Babette Babich. Paper 11.
http://fordham.bepress.com/phil_babich/11

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Charles Andler: Nietzsche, sa vie et sa pensée (1920)

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Charles Philippe Théodore Andler, né à Strasbourg le 11 mars 1866 et mort à Malesherbes le 1er avril 1933, était un germaniste français, professeur d'allemand au Collège de France et à la Sorbonne. Il est considéré comme l'un des pères fondateurs de la germanistique comme discipline universitaire.

Nietzsche, sa vie et sa pensée (1920)

Vol. 1. Les précurseurs de Nietzsche.- Vol. 2. La jeunesse de Nietzsche (jusqu'a la rupture avec Bayreuth)- Vol. 3. Nietzsche et la pessimisme esthétique.- Vol. 4. La maturité de Nietzsche (jusqu'à sa mort)- Vol. 5. Nietzsche et le transformisme intellectualiste.- Vol. 6. La dernière philosophie de Nietzsche; le renouvellement de toutes les valeurs
http://www.archive.org/search.php?query=Nietzsche%2C%20sa%20vie%20et%20sa%20pens%C3%A9e%20AND%20mediatype%3Atexts

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Nietzsche: "Périr par la connaissance absolue..."


Personne n'admettra facilement la vérité d'une doctrine simplement parce que cette doctrine rend heureux ou vertueux, exception faite peut-être des « aimables idéalistes », qui s'exaltent pour le vrai, le beau et le bien et qui élèvent dans leurs marécages, où elles nagent dans un pêle-mêle bariolé, toutes sortes de choses désirables, lourdes et inoffensives. Le bonheur et la vertu ne sont pas des arguments. On oublie cependant volontiers, même du côté des esprits réfléchis, que rendre malheureux, rendre méchant, sont tout aussi peu des arguments contraires. Une chose pourrait être vraie bien qu'elle fût au plus haut degré nuisible et dangereuse. Périr par la connaissance absolue pourrait même faire partie du fondement de l'Être, de sorte qu'il faudrait mesurer la force d'un esprit selon la dose de « vérité » qu'il serait capable d'absorber impunément, plus exactement selon le degré auquel il faudrait délayer pour lui la vérité, la voiler, l'adoucir, l'épaissir, la fausser. Mais le doute n'est pas possible, dans la découverte de certaines parties de la vérité les méchants et les malheureux sont plus favorisés et ont plus de chance de réussir. Pour ne point parler ici des méchants qui sont heureux, une espèce que les moralistes passent sous silence. Peut-être la dureté et la ruse fournissent-elles des conditions plus favorables pour l'éclosion des esprits robustes et des philosophes indépendants que cette bonhomie pleine de douceur et de souplesse, cet art de l'insouciance que l'on apprécie à juste titre chez les savants. Avec cette réserve cependant qu'on ne borne pas la conception du « philosophe » au philosophe qui écrit des livres, ou qui fait des livres avec sa philosophie. — Stendhal ajoute un dernier trait à l'esquisse du philosophe de la pensée libre, un trait que, pour l'édification du goût allemand je ne veux pas omettre de souligner ici. « Pour être bon philosophe, dit ce dernier grand psychologue, il faut être sec, clair, sans illusion. Un banquier qui a fait fortune a une partie du caractère requis pour faire des découvertes en philosophie, c'est-à-dire pour voir clair dans ce qui est. »

Par delà le bien et le mal
Prélude d’une philosophie de l’avenir
Traduction Henri Albert.
Mercure de France, 1913 [dixième édition] (Œuvres complètes de Frédéric Nietzsche, vol. 10, pp. 51-83).
http://fr.wikisource.org/wiki/Par-del%C3%A0_le_bien_et_le_mal/Chapitre_II._L%E2%80%99esprit_libre#39.

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Lorem Ipsum

"All testing, all confirmation and disconfirmation of a hypothesis takes place already within a system. And this system is not a more or less arbitrary and doubtful point of departure for all our arguments; no it belongs to the essence of what we call an argument. The system is not so much the point of departure, as the element in which our arguments have their life."
- Wittgenstein

Lorem Ipsum

"Le poète ne retient pas ce qu’il découvre ; l’ayant transcrit, le perd bientôt. En cela réside sa nouveauté, son infini et son péril"

René Char, La Bibliothèque est en feu (1956)


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