Mar 11, 2011

O campo dos fenômenos puros revela-se ainda uma corrente heracliteana de fenômenos, encontrando-se a consciência, portanto, em permanente fluir, durando e ordenando-se num contínuo indefinido de durações. A temporalidade, característica geral de todas as vivências, é uma temporalidade imanente, puramente vivida. A consciência dá-se num presente que vem de um passado e segue para um futuro. A vivência é unificada por este fluxo temporal.

Assim, a temporalidade é uma forma necessária da consciência que une as vivências umas às outras. O tempo desempenha, por isso, uma função unificadora relativamente à consciência; faz dela uma única vivência designativa do mesmo objeto; postula, no entanto, uma síntese ainda mais íntima entre os elementos constitutivos da própria vivência.

Essa unificação leva-se a efeito pela intencionalidade. A intencionalidade é como um raio de luz, que provém do eu e se dirige ao objeto; simplesmente tem, no seu caminho, de animar, por assim dizer, substratos que expliquem a diversidade dos objetos de que tenho consciência; são esses substratos os dados sensíveis, também chamados hiléticos, ou, simplesmente, hilé, em si mesmos desprovidos de intencionalidade (sons, cores, sensações em geral). A intencionalidade enforma-os, torna-os e também intencionais, pois adquirem referência intencional ao objeto transcendental que determinam.

Considerada como enformante, a intencionalidade é a noese; a noese e os seus elementos materiais constituem a parte «real» da vivência. Porém, esses mesmos dados hiléticos, tornados intencionais, são polarizados em ordem à designação imediata do objeto. Surge deste modo a vivência orientada para o objeto — o noema. Este noema transcende, de certo modo, a vivência, não pertence aos seus constituintes reais; é a componente «irreal» ou «intencional», porque tende para o objeto que designa.

Finalmente, há a considerar o objeto. Examinando o noema, encontramos que nele reside um conteúdo, ou seja o seu sentido, através do qual o noema se relaciona com o seu objeto. Husserl apresenta como exemplo, o caso de uma árvore. Essa árvore não se dá na consciência isoladamente, mas revestida por um certo número de elementos que designam diretamente a árvore ou dão à árvore uma modalidade característica. Este conjunto, assim formado, representa o noema completo. A camada exterior dos elementos, que afetam o modo como se tem consciência do objeto, neste caso, da árvore, são os caracteres noemáticos. Quer dizer, a árvore pode tornar-se consciente, não só pela presença, no caso de uma percepção, mas também como recordada, imaginada, etc. Estes caracteres noemáticos exprimem os modos, segundo os quais se apresenta o objeto como tal.

A estes caracteres noemáticos juntam-se os caracteres de ser (Seincharaktere) que indicam o modo como o objeto é concebido no seu mesmo ser. Husserl designa-os por correlatos noemáticos dos caracteres (noéticos) de crença (Glaubenscharaktere) ou caracteres dóxicos, pois na atitude transcendental a certeza ou dúvida relativamente à existência do objeto só pode conceber-se como uma espécie de crença ou de opinião.

Os caracteres noemáticos caracterizam o objeto, neste caso a árvore, no modo de se apresentar. Podem variar e o objeto permanecer o mesmo. Por seu turno o objeto é determinado por uma série de elementos que compreende os dados hiléticos, enquanto projetados no noema, devido à intencionalidade e que se podem manter idênticos através dos caracteres noemáticos. Esses elementos é que nos determinam o objeto e constituem o núcleo noemático em sentido objetivo. Neles e por eles é que o objeto se encontra significado na sua qualidade de objeto consciente. [fonte]

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