Aug 6, 2010

Em um pequeno tratado que data de 1990, Hélène Védrine (filósofa, professora emérita da Universidade de Paris I) dedica-se ao exame das Grandes concepções do imaginário na história da filosofia. E, como é quase sempre o caso nesse tipo de projeto, a primeira questão que se levanta para o leitor é o da própria convocação dos autores e dos pensamentos examinados: pois não há dúvidas de que o percurso trilhado por Védrine poderia ser radicalmente outro, em companhia, quem sabe, desses mesmos ou de outros filósofos interessados pelas aventuras da imaginação humana – mas disso a autora está bastante consciente, como seu texto nos deixa bastante claro.

[Resenha
VÉDRINE, Hélène. Les grandes conceptions de l’imaginaire. De Platon à
Sartre et Lacan. Paris: LGF, 1990
Disponible en: http://redalyc.uaemex.mx/src/inicio/ArtPdfRed.jsp?iCve=117112620015 ]

A história da imaginação foi escrita por uma constante oposição entrerazão e sensação: sob a forma de tensão entre doxa/episteme, de separação alma/corpo, de desacordo entre lógica e paralogismo, a imaginação se viu continuamente entre fogo cruzado, alvo comum de dimensões que nada além delapoderia reconciliar.

A concepção platônica, enraizada no mais vigoroso idealismo já proposto, procede a uma crítica radical das imagens, mundo do simbólico que Platão rejeita como mera degradação da Verdade. Contudo, o próprio Platão reconheceria a eficácia dos mitos como estratégia narrativa, como fica especialmente evidente no Timeu, no Fédon e na República.

Diferentemente de seu mestre, em Aristóteles a imaginação não mais passará por essa espécie de “não-ser”, constantemente suscetível de engano. Ao contrário, Aristóteles liberta decididamente a imaginação da mimeis: não mais se encontrando a meio caminho entre o modelo ideal a ser contemplado e a cópia sempre imperfeita que dele deriva, a imaginação ganha o status de mediação entre a sensibilidade e a razão, entre o sensível e o inteligível – mas torna-se, por isso mesmo, dependente dos dois; mas, não se reduzindo nem a um nem a outro, ela se torna de certa forma imprecisa.

O período do Renascimento inaugura, na concepção de Védrine, o “reino da imaginação”. Centrada numa visão em que o humano será largamente privilegiado, a imaginação será tomada em termos dinâmicos, expressando a subjetividade, através do desejo, do eros, da imaginação criadora. É esse o contexto em que a utopia passa ao centro das elaboração intelectuais e torna-
se projeto essencial do mundo renascentista, inscrevendo-se explicitamente no jogo da vida política.

Védrine ressalta um interessante episódio no livro III da Ética de Espinoza, em que contradizendo a perspectiva racionalista que caracteriza o autor, a imaginação é relacionada ao desenvolvimento da subjetividade, da “potência de si”. Essa surpreendente concessão abre espaço para um entendimento bastante incomum, pelo qual os afetos humanos correspondem a uma “idéia” – a um sentido que não mantém necessariamente a clareza figurativa de uma
“representação”. O conatus será entendido como potência de harmonização da alma, que permite à consciência acolher positivamente os afetos. Poder de imaginação, o conatus é desejo, como dirá Espinoza; e é, pois, essencial ao homem, movendo-o na constituição de si próprio.

O século XVIII, que se caracteriza, justamente, por seus intensos ataques às crenças e às ideologias (fontes de enganos), tem em Hume o retorno da imaginação associada à ilusão constitutiva do sujeito e fundada no hábito e nos costumes. Contudo, o que interessa a Hume é o movimento lógico que ele retrata na teoria da inferência, e que desloca a questão da imaginação para o uso legítimo ou ilegítimo dos princípios de analogia, contigüidade e causalidade.

Reduzida, assim, mais uma vez, aos desacertos da razão, a imaginação deverá, na modernidade, esperar até Kant, para enfim ser convertida em potência de síntese em que se apóia o entendimento. No “esquematismo” kantiano, observa a autora, a imaginação é enfim emancipada do engano, tornando-se força construtiva que possibilita a objetividade, a partir das diferentes sínteses a priori realizadas no espaço e no tempo. Isso não impede, porém, que a imaginação se mantenha, na obra do filósofo, como um conceito obscuro, sempre a meio caminho entre a sensibilidade e o entendimento.

Não mais relacionada à mera percepção, a imaginação inspira, em Bachelard, uma estética concreta, orientada para um mundo de imagens, elementos e formas, guiada por uma metamorfose criadora. Se a consciência é doadora de sentido, os objetos reais, em sua materialidade e resistência, são portadores de uma abertura que clama pelo ato da imaginação, e o que interessa ao filósofo é compreender o paradoxo que acompanha o objeto, cuja imagem é a cada vez um evento singular e, ao mesmo tempo, transsubjetivo.

Védrine se detém, igualmente, na concepção sartriana, na qual a imaginação está ligada à idéia de liberdade, da possibilidade de uma consciência “nadificante” do mundo: a produção do irreal, da fantasia pela imaginação poderia sugerir uma certa desvinculação do mundo; mas ao contrário, afirma Sartre,é o “ser no mundo” que é a condição da imaginação. Védrine conclui sua análise pelo pensamento lacaniano, apresentando o quadro conceitual que, segundo a autora, procura estabelecer um “kantismo sem sujeito transcendental”: no lugar dos conceitos de espaço e tempo que, na Crítica da razão pura, eram condições para o pensamento, Lacan introduz a noção de significante. A lingüística fornece a estrutura básica que, transcendendo toda existência individual, a define e a torna possível. Védrine sublinha os limites lacanianos – sobretudo a redução do imaginário ao especulativo, ao simbólico, entendido como esfera sempre exterior ao indivíduo. Como observa a autora, se a imagem de si (sua “simbolização”) só pode se constituir a partir do Outro, ela será forçosamente feita de fraturas, num eterno devir. Sem a noção de criação, afirma Védrine, a definição lacaniana deriva em paradoxo.

O diagnóstico de Védrine não é pessimista: na contemporaneidade, a imaginação teria enfim recebido seu título de cidadania – sobretudo, em certas áreas como a psicanálise, antropologia e filosofia. Emancipada da subalternidade em relação à sensação e ao entendimento, a imaginação se permite pensar como mais do que substituição, representação, mimesis, ilusão e irrealidade: como força capaz de produzir sentidos, um conceito que interessa ao estudo do humano e suas sociedades.

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