Apr 24, 2017





Considerações Preliminares

No tocante à descrição dos sintomas, se existe um ramo das doenças humanas que dificilmente poderia ser levado a um grau mais elevado de perfeição, esse é sem dúvida o das doenças mentais. O famoso professor Pinel, no seu Traité de l'aliénation (Tratado da alienação), e, na sua esteira, o doutor Esquirol, nos seus excelentes artigos do Dictionnaire des sciences médicales (Dicionário das Ciências Médicas), elaboraram quadros tão verdadeiros e completos dos numerosos distúrbios da inteligência, que seria vão buscar algum sintoma ou fenômeno essencial que lhes tivesse escapado. Infelizmente, para a espécie humana, os esforços dos maiores médicos, até o presente, apenas permitiram rasgar parte do véu que recobre o assunto aqui abordado. Tanto os sintomas da alienação e de suas numerosas espécies, quanto as causas que a preparam ou excitam foram descritos com a maior exatidão; entretanto, a sua natureza mais íntima, ou, antes, as suas causas imediatas, escaparam, até hoje, às mais laboriosas e científicas pesquisas e, via de regra, deram apenas ensejo a hipóteses mais ou menos duvidosas. Logo, é essa parte da patologia das doenças mentais que deve chamar a atenção dos médicos e exige a observação mais assídua. O conhecimento da natureza das doenças é o alicerce mais inabalável da terapêutica; e, sem dúvida, se a natureza da alienação mental fosse descoberta, o seu tratamento não se limitaria quase inteiramente, como ocorre hoje, aos cuidados mais ou menos infrutíferos da higiene.

As opiniões dos autores em relação à sede e à natureza da alienação são tão variadas que nem cogito passá-las em revista. Vários médicos eminentes, guiados por um juízo rigoroso e pelo medo de incorrerem em disparate, limitaram-se aos resultados de uma observação profunda, sem emitir qualquer opinião ou explicação a respeito da natureza da loucura. O sr. Pinel não dedicou nenhum artigo de sua obra imortal a esse interessante assunto; entretanto, em dado lugar (p. 1411), insinua que a sede primitiva da mania se localiza na região do estômago e dos intestinos, de onde, como que por irradiação, o distúrbio do entendimento se propaga. Vários observadores famosos, como Bonet, Morgagni, Meckel, Greding e Willis propuseram diferentes ideias sobre a alienação; entretanto, fundamentaram-nas em um número de fatos limitado demais para merecerem muita confiança. A maioria dos médicos modernos considera a alienação o resultado de uma irritação do cérebro, não como uma lesão do próprio princípio intelectual. Ora, qual é a natureza dessa alteração física? Este é justamente o ponto obscuro e incerto. As numerosas pesquisas anatômicas feitas em cadáveres de alienados comprovaram de modo incontestável que, por um lado, na maioria dos casos, não há lesões orgânicas perceptíveis pelos sentidos, quer no cérebro quer nas partes adjacentes; e, por outro, em outras circunstâncias, existem alterações mais ou menos notáveis em diferentes órgãos da economia. Esses fatos serviram de fundamento a opiniões opostas quanto à sede da alienação, levando uns a ver a doença como uma afecção idiopática do cérebro e, outros, como uma afecção simpática desse mesmo órgão.

O sr. Georget, autor de um novo tratado sobre a loucura, sustenta que essa doença é sempre uma afecção idiopática, cuja natureza é desconhecida e na qual os sintomas que se manifestam em vários órgãos da economia, mais ou menos afastados do cérebro, são secundários e decorrentes da alteração desse órgão. O sr. Falret, em seu Traité du suicide et de l'hypochondrie (Tratado sobre o suicídio e a hipocondria) compartilha essa opinião. Em compensação, o sr. Prost (Coup d'œil sur la folie [Breve observação sobre a loucura]) considera a alienação uma doença sempre simpática e a define assim: distúrbio dos órgãos cerebrais determinado por um distúrbio dos órgãos mucosos do ventre, sobretudo da bílis e do estômago. Segundo esse autor, a maioria das causas predisponentes e ocasionadoras da loucura age sobre o fígado e os intestinos por intermédio do cérebro. Disto resulta uma secreção de bílis mais abundante, a qual aflui nos intestinos e adquire, diz ele, propriedades que parecem inebriantes para o encéfalo e corrosivas para o aparelho digestivo. Segundo o sr. Prost, a acumulação de bílis torna-se a causa mais ativa da loucura, por comunicar ao sangue fluídos corrompidos, por atuar de maneira imoderada sobre a membrana mucosa intestinal, a qual pode inflamar ou até mesmo escoriar, e finalmente por irritar os vermes que, na opinião desse autor, são comumente encontrados nos alienados. Em consequência desta ideia, considera os vomitórios, purgantes e anti-helmínticos como a base do tratamento da loucura. O sr. Broussais acredita que essa doença se acompanha e é, no mais das vezes, dependente de uma gastrite crônica.

Todas essas opiniões sobre a sede e a natureza da alienação parecem pouco fundamentadas apenas por serem excessivamente exclusivas. Parece-nos que, ao estudar cuidadosamente os fenômenos da alienação mental, todo médico, desde que não esteja dominado por alguma opinião formada ou ideia pré-concebida, apreciará suas causas e comparará os sintomas da doença com as lesões anatômicas encontradas quando se abre o corpo de alienados que morreram. Então, não poderá senão admitir que a loucura, na maioria das vezes, é idiopática e, entretanto, às vezes, sintomática. Esta é a opinião do professor Royer-Collard, que tem tanto peso nesse importante assunto, opinião que abraçamos e tentaremos provar com a ajuda de certo número de fatos, limitando-nos a relatar os que tendem a demonstrar que a alienação mental pode ser simpática, pois os que estabelecem que, na maioria das vezes, ela é idiopática são tão abundantes e concludentes que seria supérfluo querer aumentar mais ainda o seu número.

Nosso trabalho divide-se em três partes. Na primeira, buscamos provar que a alienação mental é, às vezes, o sintoma de uma inflamação crônica do aracnoide. A segunda tenciona demonstrar que essa doença pode ser ocasionada, mantida ou modificada por uma gastrite ou gastrenterite crônica. A terceira inclui duas observações nas quais a loucura parece ter sido determinada por uma gota irregular.

As observações que respaldam esta dissertação foram feitas e recolhidas na Maison royale de Charenton, sob os olhos do professor Royer-Collard, médicochefe desse estabelecimento, ao qual renovo, aqui, a homenagem do meu reconhecimento pelas bondades que me dispensou no decorrer dos meus estudos médicos.

Pratiquei a maioria das autópsias cadavéricas junto com o meu amigo, o doutor Roberts-Roche, inspetor do serviço médico da Maison royale de Charenton.

Texto completo com a parte I - Apresentação com informações importantes da obra - Edição original

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